Porque? Porque ele faz assim? Tão áspero, tão sincero, tão ele. Ela quer esquecê-lo, ela tenta esquecê-lo, ela tenta. Ela sempre acreditou em tudo o que ele falava, cegamente, ela não tinha duvidas embora ouvisse muitas coisas, mas isso não importa agora, ela ainda acredita nele, ela ainda o ama, tanto, tanto.
Porque ele faz isso? Quando ela quer esquecer, ele joga na cara dela o quanto ela é ridiculamente infantil, ele a faz chorar com a primeira frase, com todas as frases, ele a faz lembrar, ele a faz pensar em tudo de ruim que ela fez pra ele, ele faz tudo isso mostrando que a ama.
Ela olhava aquele rosto jovem à sua frente, sem enxergá-lo.
-- Ei, porque você não presta atenção em mim? Porque esta sempre com a cabeça nas nuvens?
-- Ah, desculpa, eu penso em mil coisas.
Não, eu não penso, ela não pensa, ela se pergunta onde ele está, o que estará fazendo, como ele estará. Longe dela.
Ela fez suas escolhas e convive com elas, sem arrependimento.
Sem arrependimento?
Ela achou que queria tudo e percebeu que queria ele, mas eles não foram escritos nas mesmas páginas, eles são capítulos diferentes de um mesmo livro, uma droga de livro.
Tarde demais pra voltar atrás? Talvez não fosse, mas ela não podia voltar, ela não podia.
Dias depois e ela ainda andava naquela praça, naquele banco, procurando um motivo para ficar ali, qualquer que fosse, uma desculpa que a mantivesse menos culpada por simplesmente permanecer, por ainda querer ficar ali, esperando ele.
Ela simplesmente havia parado de escrever, e desistido. Desistido dele, desistido do jornalismo, desistido, ela continua assim, desistida.
Ela não tem idéia de como ele se sentiu, do que ela o fez sentir, e ele não tem idéia de quanto ela pensa nele, mas ela não quer mais, dói demais, dói DEMAIS pensar nele, dói demais fingir que ela está melhor assim. Ela o apagou da sua vida, e não foi por não amá-lo, foi por não esquecê-lo.
Ele vai se perguntar por que ela não o escolheu. Ela não sabe, porque ele é tão inteligente, culto, cavalheiro, engraçado, não há porque abandonar tudo o que ela queria ter. Mas ela o fez, ela deliberadamente largou tudo aquilo que ela sempre quis, e o que ela sempre sonhou em sentir, ela largou. E o único motivo plausível é o fato de que ela tem certeza de que não daria certo, não por algo que ele tenha feito, mas pelo que ele é. Seria um crime mudá-lo, seria um crime contra ele, ela não vai nem tentar, ela não quer tentar.
Ela queria ouvir ele lhe desejar feliz natal, ela correria e pularia nos braços dele, fazendo-o quase cair, tiraria o presente da bolsa, meio amassado por estar muito tempo guardado, aquele presente que ela ficou horas embrulhando, ela o daria e ele ficaria surpreso, ela sorriria e o beijaria, só então ele iria abri-lo.
Ela sempre sonhou em permanecer ao lado dele, em ficar ao lado dele até ele mudar de idéia, ela sonhou em dormir e acordar com ele, em ouvi-lo cantar, em vê-lo escrever, em participar.
Mas agora ela acordou.
Mas agora ela acordou.
Ela o mantem longe, ela se mantem longe. Ela espera mesmo que seja melhor assim, pelo menos com o tempo. Muito tempo.
Desculpa amor.






