terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Dúvida



Porque? Porque ele faz assim? Tão áspero, tão sincero, tão ele. Ela quer esquecê-lo, ela tenta esquecê-lo, ela tenta. Ela sempre acreditou em tudo o que ele falava, cegamente, ela não tinha duvidas embora ouvisse muitas coisas, mas isso não importa agora, ela ainda acredita nele, ela ainda o ama, tanto, tanto.
Porque ele faz isso? Quando ela quer esquecer, ele joga na cara dela o quanto ela é ridiculamente infantil, ele a faz chorar com a primeira frase, com todas as frases, ele a faz lembrar, ele a faz pensar em tudo de ruim que ela fez pra ele, ele faz tudo isso mostrando que a ama.
Ela olhava aquele rosto jovem à sua frente, sem enxergá-lo.
-- Ei, porque você não presta atenção em mim? Porque esta sempre com a cabeça nas nuvens?
-- Ah, desculpa, eu penso em mil coisas.
Não, eu não penso, ela não pensa, ela se pergunta onde ele está, o que estará fazendo, como ele estará. Longe dela.
Ela fez suas escolhas e convive com elas, sem arrependimento.
Sem arrependimento?
Ela achou que queria tudo e percebeu que queria ele, mas eles não foram escritos nas mesmas páginas, eles são capítulos diferentes de um mesmo livro, uma droga de livro.
Tarde demais pra voltar atrás? Talvez não fosse, mas ela não podia voltar, ela não podia.
Dias depois e ela ainda andava naquela praça, naquele banco, procurando um motivo para ficar ali, qualquer que fosse, uma desculpa que a mantivesse menos culpada por simplesmente permanecer, por ainda querer ficar ali, esperando ele.
Ela simplesmente havia parado de escrever, e desistido. Desistido dele, desistido do jornalismo, desistido, ela continua assim, desistida.
Ela não tem idéia de como ele se sentiu, do que ela o fez sentir, e ele não tem idéia de quanto ela pensa nele, mas ela não quer mais, dói demais, dói DEMAIS pensar nele, dói demais fingir que ela está melhor assim. Ela o apagou da sua vida, e não foi por não amá-lo, foi por não esquecê-lo.
Ele vai se perguntar por que ela não o escolheu. Ela não sabe, porque ele é tão inteligente, culto, cavalheiro, engraçado, não há porque abandonar tudo o que ela queria ter. Mas ela o fez, ela deliberadamente largou tudo aquilo que ela sempre quis, e o que ela sempre sonhou em sentir, ela largou. E o único motivo plausível é o fato de que ela tem certeza de que não daria certo, não por algo que ele tenha feito, mas pelo que ele é. Seria um crime mudá-lo, seria um crime contra ele, ela não vai nem tentar, ela não quer tentar. 

Ela queria ouvir ele lhe desejar feliz natal, ela correria e pularia nos braços dele, fazendo-o quase cair, tiraria o presente da bolsa, meio amassado por estar muito tempo guardado, aquele presente que ela ficou horas embrulhando, ela o daria e ele ficaria surpreso, ela sorriria e o beijaria, só então ele iria abri-lo.
Ela sempre sonhou em permanecer ao lado dele, em ficar ao lado dele até ele mudar de idéia, ela sonhou em dormir e acordar com ele, em ouvi-lo cantar, em vê-lo escrever, em participar.
Mas agora ela acordou.
Ela o mantem longe, ela se mantem longe. Ela espera mesmo que seja melhor assim, pelo menos com o tempo. Muito tempo.
Desculpa amor.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Conformismo



Ela continuou aquele caminho, refazendo os passos dele, andando sobre as mesmas pegadas. Ela só consegue sozinha, pois com ele, ela nunca andava junto, ele estava sempre um passo a frente, uma noite a frente, pelas costas.
Não fique com raiva não, amor. Nossa história é contada separada, o mundo não nos escreveu juntos, estávamos paralelos e assim ficaríamos, de um jeito ou de outro.
Ela não tem raiva, nem ciúme. Ela está feliz com o que o destino reservou pra ela. Ela não é ninguém pra querer mais do que a parte que lhe cabe. E sabe que aqueles sapatos não foram feitos para os seus pés. Ela não é a Cinderela.
Oh, me desculpe príncipe encantado, acho que vossa majestade precisará procurar um pouco mais.
Sinto Muito.
Mas apesar de tudo, não importa, ela não era a mocinha, não era a donzela em perigo, ela era coadjuvante, contracenando com tudo sem fazer parte, pertencente aos diversos núcleos sempre sendo o que precisam que ela seja. Fim do capítulo.
Próximo, por favor.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Desespero



Foram alguns dias. Alguns dos piores que ela já passou. A iminência do fim. A inerência que ele tinha à vida dela não foi o bastante, o estar sempre lá, sem estar, constantemente ausente, mas onipresente nela.
Aqueles foram carinhos de despedida, a mão dela segurando a dele, a cabeça dela encostando-se mais uma vez ao peito dele. Mais uma ultima vez. Doeu ficar ali, doeu ficar sabendo que não mais ficaria, doeu estar sabendo que a não mais estava.
Estava?
A reação inesperada dele ao ouvi-la. Apoiando-se nas mãos, acendendo o cigarro, tremulo. Ela também estava tremula.
Por dentro ela gritava pra que ele não a ouvisse, pra que ele simplesmente a olhasse, como que voltando pra realidade e perguntasse o que foi mesmo que ela falou, então ela revolveria memórias em busca de qualquer assunto que nada tivesse a ver com a despedida que a boca dela pronunciava enquanto todo o resto negativava. Ela negativava e mesmo assim seguia, ela nem sabia mais se conseguiria, pensou em desistir, uma vez, outra, outra, outra, outra, outra. Não desistiu, ela não muda de idéia, ou muda? Sim, ela muda, de cinco em cinco minutos ela pensa em ligar e disfarçar a voz de choro pra dizer que não passou de besteira, que mais uma vez ela seguiu por impulso.
Mas ela não vai ligar.
Tudo o que ela sentiu não diminuiu nem um décimo, nem uma gota, e é isso que é pior, mas acordar e saber que ele acabou de dormir, dormir sabendo que ele não esta ali, nem vai estar, simplesmente é demais pra ela, é demais pra ela agüentar, coisas demais pra suplantar. E ele vai perguntar se não vale a pena, vai perguntar por que ela não espera que tudo isso se resolva e ela não vai conseguir responder. Não é imediatismo, não é a percepção limitada de adolescente, não é a ansiedade que ela mostra tanto pelas suas unhas roídas e suas corridas ao encontro dele. Não é isso. Ela simplesmente não consegue mais. A distancia a fere de uma maneira que ela não explica, de uma maneira que ninguém explica.

Ela vai buscar todas as coisas que lhe foram negadas, ela vai se atirar sem medo de cair, ela vai cair, e não vai levantar, mas isso não importa. Ela não quer levantar. Ela ainda o ama.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vôo





O som da voz dele no doce 'eu te amo'. Pulando enquanto falava ao telefone, ela estava feliz, não, ela estava extraordinariamente feliz. Excitação, emoção, êxtase.

Porque voltar, se o caminho de ida me leva a ti? É uma estrada de mão dupla e o caminho de volta é certo e seguro, mas é vazio. Soluços e lágrimas que não existem, são teus passos abrindo espaço em meio a tudo o que me faz triste. Uma estrada iluminada a minha frente, sem sinais de pare, nem semáforos, não há porque ir devagar, não há mais ninguém nela, só existe nós dois.
Inquietação é seu estado atual, ela quer mais. Mais da vida, mais do amor, mais de tudo. Não há porque esperar, o futuro se mostra glorioso e o amanhã nasce cheio de possibilidades.
Muitas e muitas possibilidades circundam uma única certeza. Certeza? Ela deixa seu estado natural de incerteza sobre tudo pra se lançar sobre uma tênue e ameaçadora camada de esperança.
Ela não tem mais medo da queda, ela abre suas asas e flutua em direção a um futuro certo de ser incerto, O céu está azul e não há barreiras.
Nem limites.
É um céu limpo, é uma estrada aberta, não existem obstáculos, o percurso está finalmente seguro.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Frágilidade




Fragilidade é a conseqüência de muitos erros, muitos acertos que deram errado, muitas faltas injustificadas, telefonemas não atendidos, cartas não enviadas. Frágil, tu me olha assim, com essa calma disfarçada, implorando força, pedindo pra que eu te cuide, pra que eu te mostre o caminho. Vem, anda ao meu lado, eu não posso te pegar no colo. Não agora. Bem que eu queria.

Chuva



Ela abriu seus olhos e sorriu no dia de hoje, ultimamente isso tem sido bem dificil, ela sabia o que a esperava naquele dia e sim, estava muito ansiosa. As coisas andaram muito, muito confusas pra ela, e ela não sabe mais o que pensar, ela não sabe em quem confiar, mensagens no celular se tornaram um certo tipo de problema, mas assim mesmo, ela espera, ela quer saber como ele se sente, a cada minuto do seu dia, e a cada minuto em que nada acontece, ela fica fantasiando sobre as mil situações nas quais ele deve ter se metido, e sobre os lugares em que ele deve ter estado, as pessoas com as quais ele deve ter falado, e o fato de ela não estar lá. Nenhuma vez ela pode estar lá. É um relacionamento complicado, e enquanto ele escreve coisas que a fazem repensar sobre tudo e relembrar o quanto ele é maravilhoso, ela só sabe escrever coisas tristes, ela não SABE escrever nada bom, mas ela tenta, ela sempre tenta.

--Alô?
Ela atendeu o telefone sabendo quem era, ela esperava aquela ligação que dizia 'vim te ver e estou te esperando, aparece de uma vez'.
Ouvir aquilo fez ela largar tudo o que estava fazendo. Guardou suas coisas naquela bolsa enorme e esqueceu algumas coisas la, mas isso ela só soube depois. Ela desceu as escadas e quase caiu no ultmo degrau, caminhou rápido em direção a praça, e ao vê-lo, não hesitou em correr.
Pular nos braços dele a fez respirar um pouco naquele dia insuportavelmente quente, e abraça-lo, ouvir seu coração pulsando rápido, foram combustíveis pra um novo sorriso. Todos os gestos dele são combustíveis pra um novo sorriso. E cada palavra dele é a combustão necessária pra tudo explodir dentro dela.
Foram algumas poucas horas contadas em que um aproveitou a companhia um do outro. Ela nem lhe disso como estava feliz em vê-lo, ela nem disse o quanto adora quando ele a chama de 'minha bela', ela nem lhe disse nada. Ela estava embriagada com aqueles olhos verdes, e ficava pensando em como pode ficar tanto tempo sem olhar aqueles olhos verdes faiscantes de algum sentimendo inominado.
Choveu, e foi pra ela, e cada gota de chuva que embebia suas roupas era a felicidade que ela sentia, ela chegou em casa enxarcada, de tudo. Enxarcada de chuva, de alegria, de sonhos futuros e promessas que não foram ditas, ela chegou em casa enxarcada de um futuro que se abria a sua frente, ela chegou enxarcada da presença dele, não a presença fisica, mas mesmo assim, ele estava de alguma forma, lá.

A presença dele passou depois de alguns instantes, e a realidade mais uma vez lhe acertou bem na cara, ela voltou a pensar no que estava fazendo e se estava certo, se daria certo, e ela não obteve resposta.

O rumo que a vida dela está tomando é surpreendente e assustador, ela não é justa, e as escolhas que fez não são certas, pra lado algum.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Angústia

Ela anda em circulos naquela praça ja conhecida aos dois, não ha lugar pra ir, não ha nenhum lugar para o qual ela queira ir. São tantas as palavras que ela esconde naquele olhar de quem sabe que está confusa. Inumeros são os motivos pra que elas se mantenha calada, inumeras são as chances de ela se machucar.
Ela tenta não parecer frágil, ela tenta manter-se calma enquanto a presença dele a faz tremer, ela nem sabe se disfarça bem o modo como ele a atrai, o modo como aqueles óculos escuros o deixam sexy, o modo como ele anda tão cheio de si, ela se sente tão bem ao caminhar ao lado dele pela cidade já conhecida. As perguntas não respondidas que lhe vêm à mente não são nada comodas, mas a presença dele é, o modo como ele sorri ao falar sobre as suas saidas, suas noites fora e seus amigos caidos em bares, o modo como ele conforta-a dizendo pra ela não se preocupar com isso, o modo como ele carrega as coisas dela, tudo a atrai cada vez mais, e cada vez mais ela tem medo. Sim, ela mentiu quando disse que não tinha medo, mas é impossivel quando as pessoas ficam aos seus ouvidos sussurando impropérios sobre uma pessoa importante, é impossivel que ela não dê atenção não é? Ela tenta ao máximo fingir que está tudo bem.
Mas não está.
Ela ouviu sua voz hoje, o que foi muito bom, ele só queria desejar boa noite, ela não entendia nada, mas isso não importava, ele estava lá, do outro lado lado da linha, e pensava nela.
Ela foi dormir pensando em como ele estava, preocupada com banalidades, e coisas como o fato de ele ter estado doente, ela estava realmente preocupada, 'ele nem vai se cuidar,' ela pensa, mas ele sabe se cuidar, e não precisa de ninguem por ele, ele é grande, ela não, e por vezes, isso a preocupa muito.
Ela pensou tantas vezes em ligar essa semana, foram dias que se passaram como meses, e ela quis muito saber como ele estava e em que pensava, mas não, ela não vai ser insistente, ela espera, e todos os dias procura ele por meios internéticos, qualquer palavra dele.
Não foram raras suas aparições em lugares públicos essa semana, e ela andava olhando em volta, e várias vezes, ao não ver nada, ao não ver ele, voltava a sua atenção para si, ela queria muito ao menos ver a figura dele, ela queia ver aquele jeito pretensioso de andar, aquele cabelo estrategicamente bagunçado, aquele sol que ele irradia, mas isso é efeito particular deles dois, ele o faz só pra ela, e nem sabe disso. Ele não sabe o quanto significa pra ela, e o quanto ela pensa no que isso pode se tornar. Ela tem decisões a tomar, e ele não vai gostar, mas ele não sabe como é difícil pra ela, fazer o que tem que fazer.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Término



Um fim é sempre triste, não é um recomeço, não é uma curva na estrada, é o final dela.
Ela se sentou em seu sofá e enterrou o rosto entre as mãos, não sabia dizer se tinha feito certo ou não, mas uma coisa que não podia mais era continuar com aquilo. Ele estava furioso, realmente bravo e decepcionado, jogara coisas nas parede, derrubara móveis e gritava com ela. Mas ela não se importava, ele tinha esse direito, como ela também tinha o direito de terminar uma coisa que ela não queria mais.
O pseudo relacionamento de dois anos se findara de maneira amargurada e hostil, e ela dormiu pensando se tinha feito certo ou não. Ele disse que ela não se importava, mas ela sonhou com ele, e acordou pensando nele, e mesmo depois de um dia atarefado tentando se distrair comprando livros, ela não deixou de pensar nele, ela não deixa de pensar nele.
Ela então volta pra sua casa, guarda seus livros e faz seu café. As pessoas em casa perguntam e ela não responde, chamam e ela não atende. O telefone toca e ela não ouve. Ela morreu.

domingo, 31 de outubro de 2010

Recomeço



É só mais um cigarro, ela pensa, ‘parei de fumar... Umas dezoito vezes esse ano’. Ela tenta acreditar no que ouviu. Olhar os olhos dele e ver a verdade que eles exportam não a ajuda em nada, principalmente quando os olhos dela só vêem o que sua mente deseja.
Olhar no espelho e tentar ver alguma verdade nesses olhos de japonesa se tornou atividade banal. Acreditar em mentiras também. Ela não sabe no que acreditar, mas ela quer crer que é verdade o que ele lhe disse com um cinismo tão disfarçado, uma mentira tão fantasiada de verdade.
Ela queria que ele soubesse como ela se sente, ela queria que todos soubessem como ela se sente, mas ela não fala, nunca fala, e mesmo quando todos falavam, inclusive ele, ela só escutava, não formulou nada, nem uma maldita frase. Ela é assim: inutilmente muda, e muda, renuncia qualquer palavra.
Ela volta pra sua vida, pros seus livros, pro seu espelho que não mostra nada, Ela volta a escrever se sentindo ridiculamente subjetiva e egoísta, mas ela é assim, ela sempre foi assim.