quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Falho.


Seria hilário se ela te chamasse como antigamente, até tu daria risada, tão ridícula tal situação. Se ela te visse os abraços não existiriam, tampouco os sorrisos.
Ela um dia precisou de ti, mas já faz tempo, tu não pôde ajudar, sempre tão ocupado com amantes e calmantes e com tua reputação que precisava ser observada e receberia riscos e manchas caso alguém conhecesse quem tu és, caso alguém conheça aquela pra quem tu não é mais nada. Alega ter saudade, mas somente a outros, para depois esquecer-se de aniversários, apresentações, formaturas ou todo e qualquer evento que tivesse a menor ou maior importância para alguém que queria só um pouco menos da tua ausência, da tua relutância em manter-se ali.
Tudo havia sido tão cautelosamente planejado e arquitetado, então por que, de repente, tu te esqueceste de todos os plano, de todos os desenganos, isolando-se e mantendo-se assim, como que fugindo de memórias e provas de uma vida passada?

Ela cresceu sem a tua presença, aprendeu a ler bons livros, ouvir bons discos, aprendeu a sair sem ter alguém para buscá-la, aprendeu a não depender de mesada, aprendeu a namorar e também a dirigir. Sem ti.
Ela não precisou de ti, não precisou da tua ajuda, dos teus conselhos e nem da tua companhia, e ainda não precisa.
Ela cresceu, sabia? É uma boa garota, caso queira saber, educada, inteligente e até divertida, ela tem alguns pontos de personalidade que lembram tu, mas não o caráter. Ela fala inglês, vai fazer faculdade, trabalha e está noiva.
Ela está bem, e vai ficar bem.
Sabe o que é melhor? Ela nem lembra de ti, ela não espera nada de ti. Mais nada de ti.
Mas ela devia, afinal, tu é o pai dela.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Cotidiano.


Fixou os olhos no teto e parou de respirar. Não havia o que fazer sozinha naquele corredor. Segundos antes a porta do elevador se fechara e aquele de quem ela não queria se despedir foi embora mais uma vez, para voltar no fim da noite, cansado de excessos e faltas e coisas sem sentido que cansam por estarem lá ocupando lugar.
E todo dia é assim.
Eles acordam, ele a beija enquanto amanhece, a chama de girassol, dão risadas, derrubam mesas, sujam sofás, ela ri, ele ri, e se amam, se chamam e vivem e morrem, todo dia, todo dia, todo dia. Ele diz que vai trabalhar, a expressa dela muda, todo dia. Todo dia ele a beija, anda dois passos e volta e pergunta se ela vai ficar bem e ela não responde por que a resposta é óbvia e ela não vai ficar bem e ela não quer ficar bem sem ele, ele a beija de novo e fecha a porta e anda até o elevador que sempre demora. E dentro da casa ela levanta, abre a porta e corre até o elevador só de camiseta, ele a pega no colo e diz pra colocar uma calça e ela ri e provoca e faz manha e pede pra ele ficar. A porta do elevador fecha e ele desceu e ela ficou e olha pro teto prendendo a respiração e começando a contar as horas pra ele voltar.
Entra de novo no apartamento, coloca uma musica e pensa na saudade que já existe e começa a machucar, se embola nas cobertas, se enrola, geme, chora, sente falta, dorme.
Acorda já de noite, olha o relógio em cima da mesa torta, ao lado da flor que precisa de água e que não pede nada para estar ali, faltam cinco horas, as vezes seis, as vezes mais, menos, muito, muito, sempre falta muito. Ela arruma a cama e limpa a casa, não há lixo no chão, não há pó na estante, não há mais nada a fazer, pensa em procurar emprego, mas não procura, pensa em ligar pra casa, mas não liga, pensa em andar lá fora, mas não sai.
Escreve alguma coisa, ouve musica, olha pela janela, fuma um cigarro, faz café, faz janta, e não pensa mais no futuro dela, e sim no futuro deles, e não basta ver ele chegar, ela precisa sentir, abraçar, morder, beijar, saber que ele está lá, que ele vai ficar, que ele não quer ir e não vai desistir de ficar, que ele não vai mais desistir de ficar. A casa é só uma casa sem ele lá, não é lar nem mar nem ar nem nada.
O mundo dela gira em torno dele, deles.
Ela ainda olha pela janela, escuta musica, espera ansiosa e tranqüila, e querendo contar as novidades no dia que não teve nada de novo. As pessoas lá embaixo ainda andam, os carros ainda correm, a sinaleira abre e fecha, ela se encosta na janela e fuma e tudo está no seu lugar, menos ela, que tem como único lugar o colo dele e é lá que tem que ficar, enrolada nos braços dele, nas pernas dele e só dele e é só isso que ela espera o dia todo e todo dia, é o sorrir tranqüilo que ela tem quando acorda, e os olhos calmos dele perguntando com o que ela estava sonhando que estava assustada ao dormir, é o vai ficar tudo bem e o já passou que tanto ouve da boca dele junto com o eu te amo, é o esconder-se, são as cócegas, o empurrar brincalhão enquanto andam nas calçadas da cidade que tanto amam, é a piada em boa hora, é a piada em má hora que se torna boa hora pela piada, é a perversão quando bebem, é a perversão quando sóbrios, são as segundas intenções, a cara de vitima, o linguajar chulo, a mente poluída, as piadas internas, o arranhar nas costas, o beijo no pescoço, a mordida, a lambida, é o sorriso, é o sentar na banheira pra fumar, é o ver como ela está, é o existir dele, que é o que faz o existir dela, o teto, o chão, as paredes dela, que são em volta dele, em volta dos dois, abrigando também alguns amigos.
A chave gira na porta.
E é tudo real, ele chega e morde e brinca e come e come e beija e ri e é assim, e é sempre assim, ela dorme todo dia agradecendo a deus por ser tão feliz.

Pra dizer que fico por aqui (parte três)


Adormeceram assim, meio juntos, meio separados, meio felizes por estarem ao menos ali. Ela acordou e ele lhe deu um beijo de bom dia, ela acordou e ele lhe deu um bom motivo para viver e ficar, para ser e continuar a ser e pertencer a ele. Sempre e só a ele.
Espreguiçaram-se e amaram-se e beijaram-se como se os problemas de ontem fossem problemas de ontem e os únicos problemas de hoje fossem esquecer aquilo tudo que já foi problema um dia. Ela não entendeu a mudança súbita, mas por qualquer motivo que fosse, não importava, pois tê-lo de volta lhe beijando, lambendo e lhe fazendo rir como se ela não fosse uma grande cometedora de erros, - o que ela sabia que era - era o que importava pra ela naquele momento mais do que conhecer algum motivo ou razão ou o denominador de uma fração que já havia sido calculada e resolvida.
Ele lhe fez comida e ela lhe fez massagem, conversaram sobre banalidades e fizeram cócegas um no outro e riram e saíram e andaram de mãos dadas, e viveram de mãos dadas, e ela lhe prometeu nunca mais soltar a mão dele, e ele prometeu nunca mais decepcioná-la.

Ele foi trabalhar, ela foi pra casa, e encontrou algo que a fez entender tudo.
É, eu também te amo.

Pra dizer que fico por aqui (parte dois)


Ele não esperou convite, entrou, sem dizer oi, com um beijo brusco e um olhar distante. Não houve abraços, não houve risadas e ele não se escondeu.
Andou em direção ao quarto e largou suas coisas, enquanto ela voltava pra cozinha para terminar a janta que deixara pela metade. Os pratos tremiam, tensos.
Ele perguntou se ela queria ajuda, e ela queria, queria tudo o que ele pudesse oferecer, e oferecer já não era o bastante.
Não obrigada. - ela respondeu
Ele sentou-se no sofá e acendeu o cigarro, depois outro e outro enquanto ela mexia panelas e queimava arroz e dedos e panos de pratos e toda a calma que ela não tinha e não aparentava e nem mais tentava. Está pronto, ela falou, indo até o quarto pra se jogar num mar de cobertas pra abafar o som da sua cabeça gritando é culpa tua é culpa tua.
Ela não o encarava, ele não a olhava, e se olhava, era tentando ver através, e nada havia atrás daqueles olhos molhados, fechados, cansados.
Eles se serviram e comeram em silencio. Os copos e pratos foram colocados na pia e ele foi até o quarto enquanto ela ficou na sala olhando a janela.
Não havia maneira de fazer aquilo melhorar, era culpa dela toda a sucessão de fracassos e os frascos de mágoas escondidos nas gavetas que foram finalmente abertos. Ela não ousava reclamar. Era grande pra errar e pra assumir que errou. Ela até tentava encarar tudo com otimismo, mas foi assustada ao ver no que se tornara. Grande demais, incrível e invencível demais, pensava ela, mas só pensava, porque na verdade, nada disso era realmente, pouco disso era algo que ela queria, mas em sua fantasia infantil era e tinha e podia e fazia.
Quando a realidade chegou, tudo explodiu na sua cara de maneira assustadora, avassaladora.
Ela foi em direção a cama e ficou ao lado dele, esperando qualquer movimento acolhedor, que fosse um gesto, um olhar, até uma repreensão, qualquer coisa que indicasse que ele ainda estava ali, aquele ele de sempre, aquele ele amável, alegre ele apaixonado que sorria pra ela e fazia caretas. Mas não estava, quem estava ali era outra pessoa, era outro, que não ele, era um outro insensível e presencial.
Que não parecia querer sair.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pra dizer que fico por aqui (parte um)

O café quente no bule descansa enquanto ela anda de um lado pro outro arrumando coisas já arrumadas, a janela permanece aberta, deixando o vento entrar pra secar roupas molhadas jogadas sobre cadeiras que nunca foram usadas. A casa dela tem o cheiro do teu cigarro, e não há jeito de desimpregnar das roupas e do nariz a tua marca e dos lábios dela o teu beijo, das mãos dela a aliança dourada que repousa feliz também na tua.
Não mais nada a fazer a não ser esperar ouvir de novo o bater na porta e o esconder-se atrás de um muro, de uma pessoa, de um poste, para então aparecer de repente como se não fosse ansiosamente esperado e como se a brincadeira não fosse conhecida.
Ainda falta muito.
Ela vai até a cozinha contendo lágrimas de pensamentos da tua potencial não aparição. Da tua falta de opção.
Os olhos cobertos de água salgada enquanto corta os legumes são traiçoeiros e a faca escorrega até um lascar de pele. O sangue faz um rastro em direção ao banheiro.
Sim, eu sei. –ela fala pro reflexo, no espelho – eu sei que tu avisou. O reflexo não responde, e a casa continua silenciosa e ela continua ouvindo todos os pensamentos e gritando pra ela mesma que a casa está vazia por culpa dela e só dela. Ela volta pra cozinha e o relógio e a faca cortando legumes são as únicas coisas que fazem barulho. A cabeça dela suprime qualquer outro barulho, sempre gritando. A cama esta arrumada, o banheiro está limpo e a louça lavada, não há mais o que fazer, e escrever, que era a sua paixão, parece inútil agora, já que a inspiração foi tomada pela cadencia de palavras dizendo culpa tua culpa tua.
Olha as fotos nas paredes, olha as pessoas na rua, olha a luz acendendo no corredor do lado de fora da porta de entrada.
Batidas na porta.
Ela corre pro banheiro e lava o rosto, gritando “já vou”. Seca o rosto enquanto vai em direção a porta e joga a toalha em algum lugar que ela não percebe qual.
As duas voltas e meia daquela chave demoram tempo demais pra abrir.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Para ver se não foi você



Ela correu para janela como se alguém fosse passar para gritar seu nome. Não ouviu nada alem do som de carros obscuros a buzinar suas revoltas ao dia, ela estremeceu seus sentimentos ao ver que a luta de suas coisas valiosas, ficavam longe de seus desejos. Recolheu seus olhos como se abraçasse seus sentimentos para dentro de si. Conduziu seu caminho para junto da estrada de seu coração e levou seus sentidos para junto de seu eu que precisava e, assim se sentia, só. O levar de seu corpo para dentro da casa, a sala vazia lhe convidava para um sono. A sala vazia lhe trazia mais que isso, era um choro, mas ali, nestas varias pontuações finais, era assim que ela sorria. Ela relutou e lutou com um café cinza que repousava ao lado de um cigarro negro de metade fumada, metade já se ia dentro de si. Ela conduziu, como a muitas coisas em si, seus sentimentos para a banheira que esfriava a água de suas desilusões. Sonhou que seu beijo podia, assim ter, um lábio quente que lhe desse um toque de lhe tirar o sono, de te jogar pela janela, de te ver correr por aqui, sem sentido algum, para te ver pegar essa chuva e ver você neste seu frio, ser seu quente. De correr ao parapeito de todas as janelas, de todos os para-peitos de prédios, de todas as corres cinzas que seus olhos colorem minha vida, que toda as desordens que sua vida faz em minhas gavetas, que todas as memórias suas possam ser mais altas e audíveis que buzinas de carros.

Foi assim, que um pouco mais da uma hora da tarde de todos os sábados que ela acordou. Tentava entender seu nome, lembrar de seu rosto, de algum cheiro de algum gosto. Passava frente ao espelho por diversas vezes ate espirrar uma palavra consigo. Nunca saia um, ola. Ela arrumou suas malas e foi para Marakesh. Chegou a sentir um cheiro de festa estranha e embarcou no primeiro ônibus que chamou seu nome. Sentou a janela e tirou os tênis para sentir o trepidar das rodas pela estrada. Sentiu que seus olhos seguiam a falta de destino do horizonte perdido de sua jovem vida. Morreu um bocado, porem levantou antes que os vermes lhe devorassem. Era forte, ficou jovem e bonita, o tempo há de destruir seus olhos, mas ela ganhou, nestes tantos tombos, um sorrir mais torto e mais cheio de malicia que eram assim, como o machucar leve de uma rosa que não se deixa tocar. Como se você pudesse ver, ela lhe deixava o cheiro pela casa, te esperava depois do banho, e aguardava um doce seu a ponta da língua.

Queimar para correr, e a banheira agora cheira lhe e perfumava o corpo de emoções. Ela deitava seus pensamentos e sonhos no centro do teto do banheiro e cantava uma musica que lhe buscava toda a linha perdida do que se encontrou pelo caminho. Aquele seu amigo ligou, você deixou de atender o fone porque sabia que ele devia estar mais ocupado com seus cadarços que das horas que suas orelhas podiam ouvir. Ela secou seu corpo e vestiu lhe uma bela roupa para dançar, roulou uma musica e o drink já esquentava sobre a mesa. Ela ou ele estavam assim, um tanto atrasados. Ela puxou sua bolsa, desligou o celular, olhou a janela e saiu pela porta.

As ruas, suas pessoas e suas vidas. Ela não era assim, tímida ao invisível, mas escondia seu olhar se um rapaz bonito lhe olhava. Torcia pelo fato de que talvez pudesse sentir seu braço sendo puxado para um interrogar de seu nome. Torcia pelo fato que talvez, um belo par de sapatos pudesse lhe tirar toda a atenção do mundo. Torcia em se arrepender de desligar o celular, torcia para que tantos desastres fossem lhe natural em vida, que se revoltava ao ver que o certo lhe trazia de volta todas as esperanças. Era sempre aquele caminho, como era assim, chegar e respirar a janela que o vento pode lhe soprar, ter alguém ali que lhe gritasse, vem aqui, so para ter a razão em responder que a distancia era a mesma, que correr, não lhe fazia chegar ao inicio mais rápido, mas que para muitas vezes o final, mesmo que seja feliz, fosse mais breve.

Então era noite. Eu dormia em seus braços e sonhava em seu corpo. Você me aquecia, esperava adormecer e despertar. Você escondia a luz da janela que invadia nosso quarto pela manha e me trazia leite aquecido para abandonar meu inverno. Você me dizia coisas sobre a noite e eu lhe trazia o dia. Você saia para o trabalho e me deixava só com nossas janelas. Você nunca existiu em mim, mas sinto que você nunca saiu de mim. Você nunca me sussurrou eu te amo ao ouvido, porem é como se pudesse sentir sua respiração junto a minha. Você não existe aqui, mas ainda sim eu corro a janela todas as manhas para ver se não foi você que chamou pelo meu nome, por ter se arrependido de ter ido embora cedo.


Escrito no meu sofá, não por mim.



postado originalmente em http://sandersonloved.blogspot.com

terça-feira, 2 de agosto de 2011

pra que saibam que ainda estou aqui

os dias tem sido assim, meio que cheios de irrealidades, mas vou começar do inicio pra que saibam, como esta sendo viver longe de voces.
começo dizendo que sinto saudades, mais no finalzinho do dia, quando o cansaço me abraça e eu ando os 230 passos que me levam até uma escadaria de 28 degraus.
conto os passos, conto os numeros, conto janelas, portas e panelas, numeros seis lembram um amor, numeros quatro e sete lembram minha mãe, numeros oito lembram meu avõ e minha irmã. o numero dez não me lembra nada.
esse lugar não me lembra nada.
28 degraus levam até uma porta, atras dela existem mais seis portas, uma escada e um corredor.
existe uma porta com um numero tres pintado nela. dela eu tenho a chave. e atras dessa porta existem duas camas e tres ropeiros, deles também tenho a chave. eu também conto chaves, mas pra elas só sei contar até tres. e numeros tres me lembram portas.
eu volto todo dia pra casa pensando em voltar pra casa.
aqui existem pessoas boas, existem assuntos interessantes, histórias. e existe muita saudade acumulada. existe congestionamento pra usar o microondas e existe fila pra tomar banho. as vezes não tem papel higienico.
as vezes eu choro no quarto. as vezes eu mato o banho. as vezes eu não cozinho. as vezes eu não como. eu nunca como.
as vezes eu escrevo, as vezes eu dou risada, as vezes eu vejo fotos. eu não esqueço mais nada.
eu saio muito, saio todo dia. eu bebo muito, eu uso drogas. eu durmo fora, eu não volto pra casa, eu desmaio, eu enjoo, eu fico gravida.
eu guardo dinheiro, eu gasto dinheiro, eu devo dinheiro e peço imprestado. eu ando sozinha, eu faço compras, eu trabalho. chego atrasada, todo dia. eu durmo até tarde, eu fico acordada de madrugada, eu tenho ressacas. fortes.
eu conheci pessoas, eu revi luares. eu ando muito.
eu ainda ando muito.
eu vou continuar andando por aqui.

Diga a todos que estou bem.

hoje queria falar sobre mim, sobre a vida, sobre a história e a memória. queria conversar com minha mãe e queria abraçar meu avo. quem sabe ouvir a risada da minha irmã. quem sabe esquecer de tudo pra não sentir saudade.
olha só, a grande menina que chora. cade ela? ela foi embora.

Hoje eu queria falar sobre todas as coisas que eu...

queria falar sobre ela, sobre ele e sobre eles que não existiram, eu queria falar sobre como as coisas certas deram errado, sobre como as coisas erradas deram certo. eu queria falar de mim, de um bebe que cresce aqui.de uma risada que morre aqui, de uma pessoa que vive aqui.
eu queria encontrar alguma familiaridade, mas não existe nada disso, não existe nada disso.
existiram tantas coisas boas, sempre me falaram do tal preço que se paga.
da tal saudade
da tal solidão
da tal perda
da tal diversão
se compensa ou não é outra história, se não ter um lar é viver sem ter pra onde voltar, por favor, volto pra la agora, mas não ter quem te esperar faz da volta, desesperança.

domingo, 31 de julho de 2011

Para Valentina

Agora os lugares se vão. Você vai saber procurar. Eu vou saber perguntar seu nome. Mas pra muitas destas noites não vamos saber por onde você se vai. Você vai chorar e vai chorar e vai gritar de amor, vai protestar e ninguém vai lhe ouvir. Vai te sentir só como uma tola, vai levantar, vai se ferir, vai luta por uma causa como se fosse uma só, vai ser uma tola. E que vamos ser no final, belos tolos do passado.
Amor. Esse é meu primeiro texto para você, sua mãe dorme bela e serena com você ao colo, eu te espero, e adoraria que você me dissesse alo de uma forma que fossemos iguais. Sei que você vai nos amar e que você morre de ciúmes, que quer dormir e tudo mais, que você não queria sair hoje, mas nós saímos, você queria estar na casa da bisa, para comer doces. E desfrutar de alguma história louca sobre a família.
O papai esta meio bêbado e tia Juh esta transando com um amigo que espero que você possa conhecer, vamos ser todos felizes,e você vai dizer ’papai, você não precisava dizer isso’ ,tah mas eu fiz , foda –se, esquece isso e vamos lá. Eu ando fudido, desde que você disse que viria nossa vida mudou, então se acostume com esse tipo de vida, eu sei que devemos ter passado por inúmeros endereços diferentes. Seu papai e fã de Bukowski, eu espero que você leia pelo menos um livro dele.
Amor, o papai acabou de acordar a mamãe falando sobre ti e sobre tudo o que ele quer pra ti e sobre tudo o que tu vai ser, sobre como tu vai ser incrível, só por ser tu, e ele fica tentando te escutar, mas acho que tu estas dormindo e não responde. Então, acredita no papai, tu vai ser tudo o que tu quiser, e vai ser foda.
Tu estava mexendo em minha barriga hoje, sabia? Não queria sair e deixou mamãe com vontade de ficar em casa, tenho certo medo de que tu vai acabar fazendo isso pro resto da vida, quando for pequena, quando for grande, dizendo ‘não mãe’, e’ pai, convence ela’, e vocês dois vão me olhar com aquela carinha de quem diz ‘por favor, faz isso’, e eu vou acabar aceitando. Não se preocupe, amor, a mamãe já pediu pro papai não deixar ela ser muito chata contigo, papai é muito inteligente e já sabe do que tu precisa, desde agora. Ele sempre soube o que a mamãe precisava e contigo não vai ser diferente.
Sabe, a mamãe esta escrevendo isso deitada na cama e o papai esta sentado numa cadeira fazendo palhaçada e cantando tópaz, quero que tu saiba que tu vai viver muito isso, que teus dias vão ser incríveis como os da mamãe e do papai quando tu nasceu, e quando tu cresceu e como estão sendo agora, enquanto tu lê isso.
A festa é tua, querida, e nela, tu faz o que tu quiser, expulsa o futuro e o passado, se for da tua vontade. Mas saiba, meu amor, que como vocês dois, a mamae nunca teve ninguém, eu te amo, desde sempre.
E tópaz é uma ótima banda, tu vai acabar ouvindo, quando for mais velha.
Meu bem, acredita que teu pai esta me dando aulas de escrita? É, ele é muito inteligente e tu vai perceber isso, e vai acabar contando pra todos os teus amigos que ele é teu pai, e dizendo: ele é foda pra caralho.
Desculpa, meu bem, a mamãe não consegue mais escrever, teu pai é muito abobado e me faz cócegas e dança em cima da cama, ele é um homem incrível, tu vai perceber isso cedo, ele vai ser o teu herói, isso é certo.
Nada é relevante o que você veria agora seria um circo que você não gostaria de dizer para o resto da família. Assim vou dizer pra você que tanto sua mãe tanto quanto sua tia Juh, de forma muito especial, você vai esquecer disso, talvez você nem vá lembrar. Sua bisa talvez, tu nem lembre. E vamos e subimos e vamos fluir aonde vocês podem me xingar mas onde vamos chegar assim, eu si que podemos lhe dar muitas coisas.
Filha assim, é só que quero lhe dizer, acabam de dizer ao seu pai onde estão seus cigarros, mas eles estavam quebrados, e sua mãe, que esta sem seus óculos, achou que fosse erva e começou a gritar perguntando por que eu não tinha lhe falado antes que tinha isso em casa, agora ela me enche o saco me apertando me dizendo,tu sabe sou eu escrevendo.
Ta mãe acaba de me subornar com um pão com hambúrguer, tu já estava nela. Viu só como é tudo culpa dela? Eu vou deixar ela agora falar contigo, porque vocês são mulheres, e são duas  pestes que vão acabar se entendendo agora.
Sua mãe gosta muito de mudar a musica, ela é o máximo, se tu aprender a gostar dela, terá a melhor amiga de toda sua vida.
Seu pai me provoca, filha, mas tu tens eu entender eu somos jovens (ele nem tanto) e estamos apaixonados, mas também tem que entender que isso vai durar o resto de nossas vidas, e um dia tu vai acordar no meio da noite e não vai entender por que a porta do quarto da mamãe e do papai está trancada. E quando for mais velha, vai mandar a gente parar de agir como crianças e como adolescentes, e nós vamos te mandar se catar e continuar da mesma maneira, mas tu já vai estar acostumada, e vai saber lidar com isso.
Agora vamos dormir, Valentina, você esta quietinha na barriga da mamãe e são 06:50 e ainda não conseguimos parar de agir como hippies. Até logo,meu amor. Continue quietinha pra deixar mamãe e papai dormir.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

on the road

eu juro que não lembro por que estava correndo, mas eu sentia que precisava sair dali. algo iria acontecer e eu não ia ficar pra ver. evitar discussões sempre foi mais facil que enfrenta-las.
eu queria que ele viesse atras de mim e me acalmasse. eu sabia que isso não iria acontecer, mas eu esperava. cansei, sentei. eu sabia que estavam me esperando, me procurando, mas era mais facil apenas sair de lá.
-- não corre mais de mim
é, eu sei que não faço nada certo, as correr é o mais certo que eu posso fazer.
eu não lembro por que estava tão brava, e não lembro o que me fez fugir, lembro de duas garafas de vinho, lembro de lágrimas nos olhos. não, eu não lembro os por ques. mas ao ve-lo ali na minha frente a vontade de sumir sumiu.
-- porra, tu me faz adiantar isso, não era pra ser agora, mas eu preciso que tu entenda que eu te amo -ele disse. e se ajoelhou.
-- era pra ser no dia seis do mes que vem. era pra estarmos num restaurante legal. com um nome legal. eu ia estar arrumado. e tu ia estar de vestido. e eu ia ter alianças, escrito on the road nelas. mas não foi assim.
então ele pegou uma folinha que tinha caido da arvore e disse
--eu só tenho uma folhinha, que é dessa arvore onde eu me ajoelhei pela pimeira e unica vez na frente de uma mulhe pra pedir que ela fique comigo pro resto da vida dela.
ele falava tudo isso olhando pra baixo, mas olhou pra mim e disse;
casa comigo?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Das recusas e das escolhas

Hoje teus lençóis estarão cheirosos e tua cama estará convidativa. ele está deitado e tenta te puxar para ficar mais um pouco. só mais um pouco. e então relutante te encaminhas ao banheiro, teu espelho está claro tua pele está boa e teu sorriso é amarelo pela cor e nunca pela situação. o café começa a tomar formas e a fumaça é bem-vinda e o jornal está na mesa. teus pratos estarão brilhando e tua caneca estará metade cheia. não falta açucar e doce é o líquido e doce é o tempo. corre o resto pela pia e o cano leva embora. então a água do chuveiro estará morna e a toalha é tão macia e o shampoo dá vontade de comer. a roupa está arrumada e te serve perfeitamente, teu beijo está ao lado e também um abracinho para qualquer situação. aí saem gargalhadas pequeninas enquanto o destino do sol é decidido. são muitas escolhas e enquanto isso todos ficam deitados olhando a janela olhando a si mesmos e gratos por serem assim tão felizes. colocam música e dançam admirando seus reflexos. não existe hora não existe choro não existe agonia e não existe perfeição. existe realidade e a realidade foi o que construíram e sem saber construir outra coisa fecharam a porta e escolheram ficar ali para sempre.




Postado originalmente em http://desfragmentada.blogspot.com/2011/05/das-recusas-e-das-escolhas.html

O sol de sua manhã

Ele teve passos diferentes naquela manhã, longe de toda a lógica das horas que haviam passado ele levantou e foi tentar ver alguma esperança no rosto dela, o estomago vazio e os pensamentos a mil por hora. Ele sentou naquele mesmo banco em que ele ficara a dias a horas a esperar ela, era como se fosse um ritual de sentenças, mas naquele dia ele já sabia o que pensar em esperar. Sem saber o que pensar em ter sobre tudo, sem saber se sorria ou se chorava, ele estava ali com a cabeça pronta para pior e os minutos foram passando e passando. Ele pensou em acender um cigarro, porem já era meio dia e era lógico a situação, ela não mais queria ver a cara dele. Ainda sem acreditar nesta possibilidade, pois ele era burro e teimoso, ele levou sua carcaça e o pouco de esperança, por uma volta pela cidade, foi ter que ver com os próprios olhos, se não era ali, escondida por de trás de uma arvore com as mãos nos lábios a pensar se gritava seu nome. Não era, e nem tinha.

Não a encontrou e voltou a andar para casa. No caminho pensava em, como poderia ter estragado e perdido tudo que teve em menos de cinco minutos. No caminho ele se lembrou de suas gavetas, de um texto, uma observação em especial que ele nunca desejou ter escrito. Na época inspirado em werther ele tentou reproduzir um pequeno trecho em localização e tristeza, não sentiu fidelidade e nem sentido para as palavras ali descarregadas, salvou o texto e o guardou para quem sabe um dia, aproveitar um parágrafo ou uma idéia. Ele viu que as horas estavam a passar então moveu sua mente a uma ultima esperança, editou algumas palavras o texto de forma desleixosa porem sinceras. A ultima esperança se referia a um ponto de ônibus especifico, em uma hora especifica. Ele falara a ela que se caso a comunicação ficasse impossível, sempre em local e hora, ele por lá estaria a esperar. Seu coração não pensou de outra maneira e ele se deslocou para o local diretamente pouco depois de publicar o confuso texto. Ele ainda estava a andar e a pensar sobre o conteúdo do texto. Aquelas palavras tiram a todas as possibilidades, o ar fúnebre do herói e aceitação passiva dele, a condição que ele mesmo parece no texto impor não era algo aceitável a um humano. Ao chegar ao ponto de ônibus ele a ficar a observar um algum especifico, a pensar, se ela ainda nem tivesse chegado a cidade? Em como nunca deveria ser como o herói do texto. Ele olhou um ônibus que vinha de sua casa, porem não achou nada de familiar dentro deste. Voltou a olhar seus sapatos, apensar sobre os dias que estavam para chegar e em como seria estranho para ele e certamente para ela, como levar uma vida pós isso; foi quando avistou o contrario do que tinha visto a pouco, o ônibus que a estava levando para casa.

Sem saber nem como e nem porque, aquilo tudo que começou acontecer naquele momento despertou um todo de fé em sua pessoa. Quando a porta do ônibus parou exatamente frente ao lugar onde ela estava sentada ele começou a duvidar de toda a realidade que acontecia a sua volta. Ela a via como se não a visse a mais de um ano, como se tudo fosse a muito e a muito tempo, ele a olhava como se nunca mais fosse lhe ver. Quando o ônibus partiu ela ainda o olhava e ele tentou a seguir com os olhos. Ele não pensou em outra coisa que não fosse correr atrás daquele ônibus, porem ele acreditou com todas as suas forças que ela fosse descer dele, e assim ele foi em direção a ele até que ele se perdesse de seus olhos e que...

Um home tem que muitas vezes se render a sua fé e suas crenças. Acreditar que e o mundo lhe tem um carinho tão grande capaz de conspirar coisas a seu favor. Você não pode andar por essa terra acreditando somente que é seus punhos e sua mente que fazem da terra um lugar melhor. Ele que acreditava em Buda e que coisas boas feitas com sinceridades lhe abraçavam, não acreditou tanto quanto naqueles minutos que ele poderia receber tal graça. É preciso ser um bocado supersticioso, ele era desconfiado, ele era vazio e egocêntrico, ele acreditava em coisas que não poderia confiar cegamente. Ele era indiferente a milhares de coisas, mas para todas essas coisas o agora lhe mostrava o contrario, ela lhe mostrava o contrario.

Ao descer daquele ônibus, correr sobre o alto do viaduto da avenida Dorival de Oliveira ela o tirou todo o fôlego que ele carregava consigo. Ele simplesmente devia sentir que era parte de algo maior de que imaginava. O que ela acabara de fazer ao vim lhe abraçar e rir de sua cara lhe mostrara que ele estava mais certo do que nunca sobre ela, ela era maior, ela era bem maior e melhor que ele e que qualquer coisas que ele já tivesse tocado. Aquilo não era o que se pode de dizer que sim, era isso que era, pois era sim o entendimento entre duas pessoas que estavam tão ligadas uma outra, que tanto ele ao seguir o ônibus sabendo que ela desceria e ela ao descer, sabendo que aquele homem que a tanto lhe foi rude agora estaria ali arrependido de suas palavras e seus atos, e lhe imploraria seu perdão.

Era um sol de duas horas. Era inicio da tarde. Ele ainda a olhava com uma curiosidade divina sobre seus atos. Ele agora a respeitava ainda mais; não somente a ela mas o que eles haviam construído em tão pouco tempo, ela era sua mulher, sem duvida alguma. Era seis de junho, e ele tentou ver isso como algo bom.

Postado originalmente em http://sandersonloved.blogspot.com/2011/06/o-sol-de-sua-manha.html

terça-feira, 7 de junho de 2011

Implosão

O que a gente construiu é maior que tudo isso, tu sabe. Começou forte, mas a cada erro, teu, meu, tem ficado mais vulnerável, eu só preciso que tu saiba que eu não vou mais ser a única a remontar cada pedaço destruido, eu não vou sempre estar disposta a recolher os pedaços caídos no chão que tu derrubou por vontade própria. Não vai ser sempre assim.
Mas posso te ajudar a rebocar paredes e pintar portas, é só dizer que quer. É só tentar comigo.

Escudos


Tu estava certo quando disse que eu veria o mundo com outros olhos agora. Eles estão abertos, minha confiança se foi, mas eu ainda estou aqui, é inevitável, meu amor por ti é incondicional e eu sei que tu pode ser um idiota mesmo quando não quer. Mas tu sabe que eu não vou mais tolerar essas atitudes destrutivas.
Acredite que eu posso cuidar de mim, e não preciso mais de ti pra isso, nem pra me proteger e nem pra me dizer o que fazer e como fazer. Não que eu não aceite teus conselhos, só decidi cuidar de mim sem depender de ti, eu decidi respirar o meu ar, já que foi provado, que existem momentos em que tu pára de respirar. E não é por me beijar. Não a mim.
Eu vou pedir pra você desligar o farol, porque daqui em diante eu sou meu próprio sol.
Tu, que brigou tanto por eu cuidar de ti quando, completamente fora de si, tropeçava nos próprios passos e passava frio por não lembrar de fechar o casaco, me mostrou que eu posso cuidar de mim quando tu não o faz. Sabe o que é mais idiota nisso tudo? É que eu sempre soube cuidar de mim mesma, mas desaprendi quando tu decidiu fazer isso por mim. Isso não vai mais acontecer. Agora eu só espero que tu cuide de si mesmo, e dos teus atos, por que eles já me feriram o bastante, e agora, largo as armas contra os outros pra segurar escudos contra ti. Que é quem mais pode me machucar.
Não sei se te culpo ou te agradeço, só sei que tudo isso foi tu quem fez.

Babaca e Idiota


Sabe de uma coisa? Tu tinha razão, eu sou mesmo uma babaca e idiota.

Babaca por ter aceito por tanto tempo tuas mentiras, tuas desculpas, tua desconsideração com todo mundo. Sou uma babaca por dizer tudo bem quando faltava a encontros por beber demais na outra noite. Sou uma babaca por confiar na tua palavra quando as provas e os fatos estavam na minha cara dizendo o contrário. Sou uma babaca por acreditar naquelas promessas. Sou uma babaca por te defender todas as vezes que, certas, as pessoas me contavam de um caráter falho e palavras falsas. Sou uma babaca, tu tem toda razão.
Mas, eu esqueci, sou uma idiota também, não sou? É, ainda acho que tem razão, foi muita idiotice da minha parte te aturar bêbado e chapado, dizendo que não tinha problema. Foi idiotice minha te deixar fazer sempre o que tinha vontade sem contar com a minha. Foi idiotice aceitar tua presunção, tua pretensão e tua arrogância, que eu sempre odiei tanto. Foi idiotice me afastar de pessoas importantes pra que não houvesse problemas futuros. Fui tão babaca e idiota em te deixar ter tanto de mim, te deixar ter tudo de mim, sendo que a única coisa que pedi foi a veracidade das tuas palavras, e o mínimo de controle sobre teus atos.
É realmente doloroso saber que pedi demais. Mas dói mais não conseguir aceitar menos.

Semelhança

Sabe qual o problema da minha mãe? Ela é otária.

Eu não tenho orgulho de admitir (na verdade tenho, mas não é bom falar sobre isso), mas desde que aprendi a andar de salto alto – o que já faz muito tempo - aprendi também tudo o que precisava pra convencer minha mãe do que eu queria. Aquela coisa do ‘ah, mãezinha, deixa vai’ funcionava muito bem. Por um tempo. Os anos passaram e as coisas mudaram. Passei a querer coisas que ela não aceitava, que não permitiria que eu participasse, então, tive que aperfeiçoar minha arte de conseguir permissão, e desenvolvi a arte da enrolação. Essa arte baseia-se na habilidade de dizer uma coisa, fazer outra, e ainda convencer a todos que estava fazendo o que disse. É mais complexa do que parece, requer tempo, prática e é claro, o dom. Mas chega um hora que as coisas desabam, existem coisas que não se sustentam por muito tempo. Tudo bem, tudo vem à tona e então aquela mãe perde toda a confiança. Nada mais justo. Mas minha mãe me ama, e como um grande sábio que eu conheço vive dizendo: Esse é o ponto. Ela me ama, e mesmo que eu erre, ela fica brava por alguns dias, as vezes por algumas horas, e depois releva. Detalhe: ela não esquece, ela releva. O porquê disso eu ainda não descobri, mas tem algo a ver com o amor que ela sente por mim. Então eu apronto, ela fica brava por algum tempinho, releva (e eu acho que ela esqueceu, mas não) e por um tempo ficamos bem. E o que acontece depois?
Então eu apronto de novo.
É, as coisas não são mais as mesmas da primeira vez, a confiança foi abalada, e é claro que ela fica com um pé atrás. Mas ela me ama, e pelos mesmos motivos pelos quais relevou pela primeira vez, releva na segunda.
Na terceira.
Na quarta.
Na quinta.
Na décima oitava.
Na qüinquagésima primeira.
Óbvio que existe uma hora que ela vai parar de confiar, mas ela ainda vai relevar, por que ela me ama.
Agora sabe qual o MEU problema? Eu sou igual a ela.

Entenda da forma que quiser.

Guerra


Você se acha tão esperto, não é? Com todas essas frases de efeito e essa grande sabedoria e conhecimento sobre os MEUS sentimentos. Sinto te dizer, mas você perdeu.
Se teus braços e teus abraços que sempre me trouxeram tanto conforto são tua única arma, e as incontáveis tentativas de me convencer que te amo são tuas balas, acho melhor pararmos de combater, tu pega em armas contra mim e contra as minhas decisões, mas desde quando você acha que sabe melhor de mim, do que eu?
Sim, companheiro, existem muitas coisas que eu vivi e você nunca viveu.
Seria fatal parar de dizer adeus. Essas incontáveis despedidas seriam substituídas por corpos nesse campo de batalha e, se alguém desistir, não haverá feridos. Muito menos heróis de guerra.
Tu culpa minha desistência por achar falta de coragem, falta de palavra, falta de ser eu mesma, e não percebe o quanto todas essas despedidas ultrapassam meus escudos e me ferem diretamente. Todos esses buracos em minha armadura, que fazem com que eu ainda fique vulnerável diante de ti são culpa desses adeus falhos que tu pensa não me afetarem.
Na minha janela, uma bandeira branca e os vidros fechados. Não olho o que há lá fora, ninguém sabe o que acontece aqui dentro.
Mas eu continuo aqui, e daqui, te vejo aí. E assim ficamos. Precisamos.
As vezes tu me dói tanto...





Romeo, não morra comigo.

domingo, 22 de maio de 2011

Sem luar.

Ontem revi alguem. Num ontem antes de ontem.
Tentei dizer que voltaria, mas não consegui. Ele até diria que sempre soube, so eu não sabia disso? Sempre tive consciencia disso, eu acho.
Até tentei dizer que gosto daquela educação e de como fala que quer ouvir minha voz.
Mas eu não consegui.
Hoje eu quis um abraço, mas não havia ninguem aqui.
Senti falta até do modo como me xinga de tapada ou de ananá.
Mas não disse isso a ele.
Talvez eu devesse, ou talvez fosse melhor esquecer e tirá-lo da minha vida.
Eu ja tenho uma vida, ja tenho um plano a seguir e um trajeto a percorrer, e neles não estão inclusas tuas belas palavras e nem teus xingamentos educados.
Eu tenho uma noite sem lua. Regada a vodka.
É isso que eu tenho.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Surpresa


Ele diz tantas besteiras que você pensa como alguém pode te fazer rir tanto, transforma canudos de copos em antenas e quelíceras e dança com você no meio da rua. Você pensa em como são diferentes demais e em como a vida estável com a qual sempre sonhou fica mais e mais longe perto dele. Mas você o ama, mesmo sabendo que ele não é o tipo de cara que a esperará com duas taças e uma garrafa de vinho, sentado sobre uma toalha xadrez num parque ensolarado e bem arborizado. Não, ele é o tipo de cara que, na páscoa, compra uma fantasia de coelho e te espera na frente da sala de aula, para que você passe a maior vergonha de toda a sua vida e tenha histórias pra contar depois, histórias divertidas e completamente imprevisíveis. Ele é o tipo de cara com o qual você nunca sonhou, é mais inteligente que você, se veste mal, tem o cabelo comprido e faz você passar vergonha. Mas quando o conhece, você vê tanto charme naquele cabelo bagunçado, naquele jeito despojado de se vestir e gosta tanto de ouvi-lo, que ele se torna tudo o que você sempre quis, e você descobre que aquele cara que é o ‘seu tipo’ nunca a faria tão feliz quanto essa pessoa que hoje está ao seu lado. Surpresas da vida? É, quem diria que o cara pra quem tu deu um papel com teu numero, por que achou incrivelmente bonito e com certeza areia demais pro seu caminhãozinho se tonaria seu namorado, seu noivo, seu marido ou aquela pessoa com quem você terá um apartamento no centro da cidade? E você nunca imaginou que teria tanto sorte, e tanta surpresa com uma só pessoa, e olha onde você está, pela primeira vez na vida sendo fiel até em pensamento sem querer mais ninguém que não seja aquele cara que todos dizem que não combina com você.
Surpresas da vida? Sim, com certeza você nunca esperou ser tão feliz. Parabéns, você encontrou o maior presente que a vida te dá: você encontrou o amor.