domingo, 23 de janeiro de 2011

Pressa

 


Ultimamente tenho colecionado textos não terminados, desculpem-me leitores, leitores que alias eu não sabia que tinha. Ando ocupada, procurando emprego, conversando sobre mim mesma, comigo mesma. Com alguns resultados, devo dizer, decidi fazer um intercambio, decidi parar de fingir procurar emprego e realmente me empenhar, decidi resolver coisas mal resolvidas, terminar coisas improdutivas e me empenhar em outras que dêem resultado, decidi fazer uma tatuagem. Me interessei um pouco mais por MPB e por arte. Reavi amizades e fiz outras. É uma época de mudanças, pra mim, recomeço, e não é pelo ano novo, é por todo um pensamento novo, uma ampliação de horizontes, uma enorme ampliação de horizontes. Vou continuar ausente por um período indeterminado, quando tiver tempo vou terminar todos aqueles textos, responder as porcarias das redes sociais, todas elas, quando eu tiver paciência pra isso.

Obrigada, Kerouac, o que dizem realmente tem fundamento, tu muda vidas.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Adeus



-- Eu tenho cinco metas.
-- Posso saber quais são ;
-- Primeira, te convencer de que me ama. Segunda, te ouvir dizer que sabe que eu posso te fazer feliz. Terceira, fazer com que tu fique comigo. Quarta, eu quero casar contigo.
-- E a quinta?
-- A quinta não vem ao caso agora.
Silencio mortal. Seus olhos encontraram o dele. Olhos de pisciano, sempre tristes, escondidos sob o cabelo.
-- Tem uma pessoa, outra pessoa, tu sabe.
-- Eu sei, sempre teve, mas eu estou aqui, eles foram e vieram, mas eu fiquei, eu ainda estou aqui.
-- Eu não posso ficar com duas pessoas ao mesmo tempo.
-- Eu sei, e eu nem quero isso, eu não quero ser o segundo. De novo. Eu quero que tu fique comigo.
-- Não.
-- Fica comigo.
-- Não.
-- Fica comigo.
-- Não. E eu tenho que ir.
-- Tu me prometeu meia hora, falta cinco minutos.
-- Eu não gosto de deixar as pessoas esperando.
-- Posso te acompanhar então?
-- ta.
Desculpe, mas isso foi um adeus, o abraço foi de adeus, o beijo foi de adeus, os nãos foram a verdade. Me desculpe, eu não posso. Eu não quero.
Essa é uma história sem continuação. Desculpa por não ouvir a musica que fez pra mim, desculpa por não aceitar teus beijos, desculpa pelos tantos nãos, desculpa pelas lágrimas que tu derramou, desculpa pelos  adeus, desculpa desculpa desculpa.
Sinto muito por te fazer sofrer, de novo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Janela



Enjoar das coisas é tão incrivelmente fácil, mas sabe quando tu enjoa de si mesmo ; Olhando-se no espelho e vendo ali a mesmice e perguntando-se o que fazer com aquele sorriso desgastado, aquele olhar cansado e aquelas olheiras de noites não dormidas, de dias mal aproveitados. Fico pensando se um dia vou gostar do que ver. Como nas aulas de filosofia que tive há anos atrás, na escola, me olho no espelho e pergunto quem sou, já naquela época não tinha respostas, hoje tudo o que consegui foram mais perguntas.
Dias tolos. Leitura, escrita e nada mais. Um apartamento vazio e uma porta fechada. Passos na escada e eu sempre espero ouvir batidas na porta, não ouço.
Outro dia parei e olhei pela janela. Pela segunda vez desde que comprei o apartamento, há seis anos, a primeira foi há três meses, quando pensei em me jogar de lá. Não me joguei, a janela tinha grades.
Faltou-me coragem, ainda falta, sair é um desafio, lá fora existem pessoas, carros, postes, muros, ruas.
Ligo a televisão. Um comercial sobre sabão em pó, o jornal da noite.
Diiing Dong.
Me assusto, fico parado alguns segundos e olho pros meus pés. Talvez se eu esperar mais um pouco pare de tocar, talvez a pessoa desista em vá embora.
Diiing Dong.
Corri até a porta e abri, não há ninguém, o corredor está escuro e ainda há pó no corrimão.
Fecho a porta e ligo a televisão. Novela.
Vou até a armário e pego a chave de fenda. Hoje tiro aquelas grades.

O meigo e simples garoto de lá.



Ele era bom e gentil, sincero e amável, até um pouco ingênuo, como todo garoto de cidade pequena. O meigo e simples garoto de lá, que tenta a vida na cidade grande. Ele veio pesando ser melhor, era o que ele queria, lugar grande, muitas pessoas, mas ele não consegue mudar seus princípios, suas atitudes certas, seu grande caráter.
Ele não é como nós. Ele não mente, ele não rouba corações, ele não mata sentimentos.
Ele vive aqui, e se apaixona aqui, mas ele não é daqui, ele é de lá, de lá do outro lado, onde tudo é diferente. Aqui ele sofre, espera viver um grande amor, até acha que vive, mas ele ainda tem muito que aprender, aqui não é como lá. Ele se entrega e sofre, ele abandona tudo por ela, mas ela não é como ele, ela é da cidade grande, ela roubou seu coração e matou seu sentimento, não por maldade, foi egoísmo, ela pensa nela primeiro, todos aqui pensam neles primeiro, eles não são como ele. Ninguém aqui é como ele.
O meigo e simples garoto de lá.
Ele vai voltar, vai voltar para onde suas intenções não são ignoradas, para onde seus sentimentos não são desperdiçados, para onde as promessas são cumpridas.
O meigo e simples garoto de lá, ele vai sorrir mais uma vez, ele vai ser feliz. Mas não aqui.

Futuro do pretérito do indicativo.



Sabe o que ela gostaria; realmente? Chorar nos braços dele em mais uma discussão de família e ouvi-lo dizer que um dia ela não terá que assistir a própria perda de lucidez. Ouvir que ela tem um espaço na casa dele, e que pode ir pra lá quando quiser, ouvir que ele tem um quarto grande e uma cama de casal, esperando por ela.
Ela gostaria de ouvi-lo pessoalmente falando que quer se casar com ela, ela gostaria que ele dissesse que vai ficar tudo bem, ela gostaria de contar seus problemas e ouvi-lo dizer que as famílias são assim mesmo, mesmo sabendo que não são.
Ela gostaria de não ter que se esconder pra escrever, chorando, sobre tudo o que ela gostaria.
Ela gostaria que ele estivesse com ela em todos os momentos, ela gostaria de conhecer tudo sobre ele, aos poucos, ela gostaria de mostrar se pra ele, mostrar se como ela é, ela gostaria de não ter medo, ela gostaria de não ter segredos.
Ela gostaria. Tempo verbal perfeito.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Boatos



O que ouvi parece-me agora tão pateticamente verdadeiro, que sinto-me enganada por mim mesma.
Não é o que eu ouço, é o que eu vejo.
Obrigada.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Complexidade



As vezes penso ser a ultima pessoa sã na Terra. As vezes penso estar enlouquecendo. Sã. Ou senil antes de completar a maioridade. Quem sabe; Talvez esteja mesmo enlouquecendo, tirando borboletas dos cabelos... azuis, roxas, vermelhas. Afinal, sou só eu mesma. Eu, meus textos e meus leitores analfabetos funcionais. Acho que ando passando tempo demais com livros do meu querido Bukowski, ele não anda me fazendo bem. Na verdade, nada anda me fazendo bem.
Estou escrevendo por mim mesma hoje, é, talvez seja uma evolução. Ou não. Mas é que andei meio Caio Fernando ultimamente, “analfabeta de mim mesma, sem vocabulário pra explicar-me até para um espelho”, tenho relido-me e foi tão tolamente fácil me encontrar ali que achei estar expondo-me demais, escrever como eu mesma me anula um pouco, por incrível que pareça.
Essas coisas acontecem, eu sei, mas não consigo tirar da cabeça que não deveriam.
Escrevi um conto hoje, mas não terminei, disquei um numero de telefone, mas não falei. Não consegui lembrar como é que se faz aquela coisa de colocar um pé depois do outro e seguir em frente, eu devia ter saído pra procurar emprego, mas tudo que fiz foi parar nos bares da cidade, conversando com travestis, bêbados e as pessoas mais chapadas que encontrei. Logo eu. Conversando de igual pra igual, afinal, estamos todos lá, à margem de tudo, vivendo em nosso próprio mundo. Sobrevivendo, como aprendemos, como fomos obrigados a aprender.
Minha vida tem se mostrado assim: incompleta.
Completamente incompleta.

domingo, 9 de janeiro de 2011

(des)encontros



Oi tédio, você de novo? o que faz aqui, além de incomodar?
Dias e dias de Nada. Ondas indo e vindo, uma leitura aqui, outra ali, passeios pela beira do mar e ela sozinha nisso tudo. Não que ela não goste da paz que um pouco de solidão proporciona, o que ela não gosta é do excesso. De paz, de solidão.
Foi num desses dias de solidão que ela conheceu-os. Igualmente infalíveis e felizes, com seus cabelos bagunçados e braços tatuados, mulheres com seus shorts e camisas de banda e seus tênis em estado deplorável, em uma crise de pedantismo que a fez rir, de simpatia, até curiosidade.
-- Oi, posso me sentar aqui;
Um aceno de cabeça e uma escorregada mais-pra-lá foram a resposta. Ela não tinha tempo a perder, mais e mais estava concentrada em Kerouac, seu mais novo amigo, que esperava imóvel e invencível em suas mãos enquanto suas páginas eram folheadas, devoradas.
-- Bela camisa.
-- Ein?
-- Ramones é muito legal. –aquele simpático estranho disse, entre um sorriso e um aceno de cabeça. Simpático até, admitia.
-- Sim, é bem legal, não tanto quanto Strokes, mas assim mesmo é bem legal.
-- Strokes é bem legal, não tanto quanto AC.DC, mas assim mesmo é bem legal.
-- AC.DC é bem legal, não tanto quanto Pink Floid, Audioslave e Radiohead.
-- Tah, tah, ganhou, ninguém pode vencer Pink Floid.
-- Ninguém pode vencer Radiohead.
Depois de um “Prazer, Porlock” e um “Cléo” veio uma sucessão de apelidos que foram sendo ditos, e no final ela já não lembrava o primeiro. Não importava, nomes não eram importantes naquele lugar. Quando percebeu, estava em uma mesa de bar perto dali comentando sobre vlogers e livros e bandas e lugares e festas e estudantes doidos e chapados deletras e jornalismo da UFRGS. Horas que se passaram em instantes, sucedidas por uma caça pela banca de tatuagens de henna, uma caça promovida por ela mesma, que acabou o dia com o símbolo da paz no ombro e cinco ou seis pessoas levando-a em casa, incluindo duas lindas loiras com raybans e três ou quatro garotos, incrivelmente parecidos, nos gestos, nas palavras, na aparência, com seus cabelos parecidos, tatuagens parecidas, calças, sapatos, narizes e orelhas iguais. Gêmeos na mesma semelhança liquidificada, simpaticamente iguais.
Telefones trocados, emails, twitters, e outras tantas redes sociais que aquelas meninas falavam e ela já não tinha mais papel pra anotar. Chegou em casa com as mãos riscadas, seu livro impecável e cinco novos amigos na conta.
“Queria que tu estivesse aqui, hoje”
Foi tudo o que ela pensou antes de dormir.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ano Novo



Rosas ao mar, brindes sendo feitos, garrafas sendo abertas, pulos desnecessários sobre ondas e pessoas bêbadas e felizes. Ela assistia a tudo isso, sentada na areia, distante daquilo, infelizmente não tanto quanto queria.
5
4
3
2
1
Nada.
Feliz Ano Novo?
Ela não tinha nada a comemorar, não há muita expectativa quanto ao que se aproxima.
Ela levanta e pega seus sapatos: pretos. Ela não se veste de branco, ela não come lentilhas, não pula ondas. Ela desacredita.
-- Feliz Ano Novo, amor. –ela sussurra, levantando a garrafa de shampagne que ela não abriu.
Ela caminha pela praia, para onde os fogos de artifício são lançados com menor freqüência. Ela sabe que a estão procurando, mas não pensa em voltar, talvez quando amanhecer.
Nos últimos dias, em cada coisa que fazia, pensou em como seria se fosse ELE lá. Incrivelmente diferente, ela sabia, e muito mais calmo, ela esperava. Esperava? Porque? Ela não tem motivos pra esperar. Não tem motivos pra ficar naquela praia sozinha, esperando o aparecimento repentino dele. Mas ela está lá. Ela deixa tudo de lado e põe em risco o que ela achou que a faria feliz pra ficar lá, esperando ele miraculosamente aparecer.
Ela ainda espera.
Feliz Ano Novo.

Natal



Um natal estéril.
Taças que não brindaram, braços que não abraçaram. Um dia não existido, parcialmente vivido.
Ela já convivia com aquela sensação: a falta, a lembrança, a ausência. Esperava noticias, na verdade sabia que não as teria, mas esperava, ela sempre espera. Ela ansiava por qualquer informação, qualquer noticia sobre ele, até mesmo a de que ele estava transando com uma qualquer por aí, bebendo em uma mesa de bar, abrindo o presente que ela não entregou.
Ela não soube nada, ninguém ligou, ninguém apareceu, ele não ressurgiu.
Ea ficou ali bebendo no gargalo aquela garrafa roubada de vinho barato.
Meia Noite.
Uma, duas da manhã.
Ela não tem amanhã.