domingo, 9 de janeiro de 2011

(des)encontros



Oi tédio, você de novo? o que faz aqui, além de incomodar?
Dias e dias de Nada. Ondas indo e vindo, uma leitura aqui, outra ali, passeios pela beira do mar e ela sozinha nisso tudo. Não que ela não goste da paz que um pouco de solidão proporciona, o que ela não gosta é do excesso. De paz, de solidão.
Foi num desses dias de solidão que ela conheceu-os. Igualmente infalíveis e felizes, com seus cabelos bagunçados e braços tatuados, mulheres com seus shorts e camisas de banda e seus tênis em estado deplorável, em uma crise de pedantismo que a fez rir, de simpatia, até curiosidade.
-- Oi, posso me sentar aqui;
Um aceno de cabeça e uma escorregada mais-pra-lá foram a resposta. Ela não tinha tempo a perder, mais e mais estava concentrada em Kerouac, seu mais novo amigo, que esperava imóvel e invencível em suas mãos enquanto suas páginas eram folheadas, devoradas.
-- Bela camisa.
-- Ein?
-- Ramones é muito legal. –aquele simpático estranho disse, entre um sorriso e um aceno de cabeça. Simpático até, admitia.
-- Sim, é bem legal, não tanto quanto Strokes, mas assim mesmo é bem legal.
-- Strokes é bem legal, não tanto quanto AC.DC, mas assim mesmo é bem legal.
-- AC.DC é bem legal, não tanto quanto Pink Floid, Audioslave e Radiohead.
-- Tah, tah, ganhou, ninguém pode vencer Pink Floid.
-- Ninguém pode vencer Radiohead.
Depois de um “Prazer, Porlock” e um “Cléo” veio uma sucessão de apelidos que foram sendo ditos, e no final ela já não lembrava o primeiro. Não importava, nomes não eram importantes naquele lugar. Quando percebeu, estava em uma mesa de bar perto dali comentando sobre vlogers e livros e bandas e lugares e festas e estudantes doidos e chapados deletras e jornalismo da UFRGS. Horas que se passaram em instantes, sucedidas por uma caça pela banca de tatuagens de henna, uma caça promovida por ela mesma, que acabou o dia com o símbolo da paz no ombro e cinco ou seis pessoas levando-a em casa, incluindo duas lindas loiras com raybans e três ou quatro garotos, incrivelmente parecidos, nos gestos, nas palavras, na aparência, com seus cabelos parecidos, tatuagens parecidas, calças, sapatos, narizes e orelhas iguais. Gêmeos na mesma semelhança liquidificada, simpaticamente iguais.
Telefones trocados, emails, twitters, e outras tantas redes sociais que aquelas meninas falavam e ela já não tinha mais papel pra anotar. Chegou em casa com as mãos riscadas, seu livro impecável e cinco novos amigos na conta.
“Queria que tu estivesse aqui, hoje”
Foi tudo o que ela pensou antes de dormir.