Uma parede branca é tudo o que ela vê. Algo que a enlouquece, transformando qualquer coisa memorizada como emoção em nada. Aquilo que um dia foi uma vida hoje não passa de uma carapaça já usada; perdeu importância. Nesse maldito muro ela enxerga seus antigos amores serem apagados pelo branco. Ele é como o fogo, consome tudo o que vê pela frente, até mesmo aquele relacionamento que não teve a oportunidade de se desenvolver. Ela sente pela última vez o arrependimento de ter partido para outra cidade sem ao menos dar uma chance aquele garoto. Este será o último momento de saudade, pois logo, logo o branco o tragará também. Sua família, seu cachorro, seu amado instrumento musical. Tudo isso será engolido por aquele monstro sem feições. E o pior de tudo é que nada parece intragável para ele.
É ruim sentir a sua vida partir? Bom, talvez você tenha merecido isso! Ninguém vem parar num quarto desses sem ter um bom motivo. Se é ou não é um castigo eu não posso responder, venho aqui unicamente para que tenhas alguém que fale contigo. Aproveite que nem tudo foi digerido e escolha um formato para mim. Dê-me um nome que lhe agrade bastante e deixe-me lhe fazer sorrir enquanto ele não te come, se realmente for capaz disso. Lembra do dia em que o conheceu? Aquele lindo casaco preto, o seu cheiro, sua barba mal feita, tudo isso cooperou para que o seu interesse aumentasse cada vez mais. E aí, quando tudo parece correr exatamente como gostaria, você o abandona, com o fictício pretexto de que não quer se envolver por medo de se apaixonar após a viagem. Sinceramente, tomara que você nunca o esqueça, pois...
Não há mais o que pensar, não há mais o que refletir. Aquela parede branca consumiu todos os pensamentos que na garota habitavam. Ironicamente, a porta deste quarto esteve aberta o tempo todo; se a fuga não foi realizada é porque havia algum interesse em esquecer tudo. Sempre há um interesse. Ele é o alimento da esperança, por isso ela é a última que morre, e por isso você correu novamente para esta maldita parede: para ser feliz de novo e sair zerada daqui, totalmente pura. Até a próxima visita...
Por Pedro Porlock:
http://porlockblog.blogspot.com/2011/03/borracha-mental.html

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