quinta-feira, 21 de abril de 2011

Para Juliteta.




         Eu espero que você esteja sofrendo com todos aqueles pequenos problemas que, quando se juntam, tornam sua vida um inferno. As chaves esquecidas em algum lugar, os arranhados na lente dos óculos, o sinaleiro que fecha, a fila que não anda, o dente que dói, o cabelo que não cresce ou que cai, o copo que cai, o elevador que não sobe logo, a buzina que não funciona, o computador que não funciona...

         A tua memória ainda funciona?

         Eu espero que você saia da putaria elegante, do alcoolismo, de dentro da sua cabeça que acha tão ampla e sofisticada, do selvagerismo, do seu carro pra perguntar o endereço.

         O meu endereço.

         Eu esperava que as desconstruções sobre sua falta de moral te ajudassem a regenerar. Mas você continua de pijama, com os livros ainda jogados pelo quarto, os rascunhos entupindo as gavetas, sentada na cama segurando em uma mão um tijolo, e o copo de café na outra.

         Eu esperava que você percebesse o erro das ligações que ainda não foram feitas, das garrafas espalhadas no piso do carro. A falta dos abraços, dos gostos que pensa serem refinados, mas são uma negação.

         Eu esperava que fosses sincera. Abrisse a boca pra falar a verdade, ao menos por telefone. Não era preciso sair de casa, carregar o pesado e transbordante copo de wisky por tantas ruas. Eu pedi apenas para gritar confirmando meus problemas, nada de esforços além de, talvez, exceder a voz.



Postado por Arthur Mesquita em:
http://fimdecapitulo.blogspot.com/


E ele tem toda razão.

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