domingo, 22 de maio de 2011

Sem luar.

Ontem revi alguem. Num ontem antes de ontem.
Tentei dizer que voltaria, mas não consegui. Ele até diria que sempre soube, so eu não sabia disso? Sempre tive consciencia disso, eu acho.
Até tentei dizer que gosto daquela educação e de como fala que quer ouvir minha voz.
Mas eu não consegui.
Hoje eu quis um abraço, mas não havia ninguem aqui.
Senti falta até do modo como me xinga de tapada ou de ananá.
Mas não disse isso a ele.
Talvez eu devesse, ou talvez fosse melhor esquecer e tirá-lo da minha vida.
Eu ja tenho uma vida, ja tenho um plano a seguir e um trajeto a percorrer, e neles não estão inclusas tuas belas palavras e nem teus xingamentos educados.
Eu tenho uma noite sem lua. Regada a vodka.
É isso que eu tenho.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Surpresa


Ele diz tantas besteiras que você pensa como alguém pode te fazer rir tanto, transforma canudos de copos em antenas e quelíceras e dança com você no meio da rua. Você pensa em como são diferentes demais e em como a vida estável com a qual sempre sonhou fica mais e mais longe perto dele. Mas você o ama, mesmo sabendo que ele não é o tipo de cara que a esperará com duas taças e uma garrafa de vinho, sentado sobre uma toalha xadrez num parque ensolarado e bem arborizado. Não, ele é o tipo de cara que, na páscoa, compra uma fantasia de coelho e te espera na frente da sala de aula, para que você passe a maior vergonha de toda a sua vida e tenha histórias pra contar depois, histórias divertidas e completamente imprevisíveis. Ele é o tipo de cara com o qual você nunca sonhou, é mais inteligente que você, se veste mal, tem o cabelo comprido e faz você passar vergonha. Mas quando o conhece, você vê tanto charme naquele cabelo bagunçado, naquele jeito despojado de se vestir e gosta tanto de ouvi-lo, que ele se torna tudo o que você sempre quis, e você descobre que aquele cara que é o ‘seu tipo’ nunca a faria tão feliz quanto essa pessoa que hoje está ao seu lado. Surpresas da vida? É, quem diria que o cara pra quem tu deu um papel com teu numero, por que achou incrivelmente bonito e com certeza areia demais pro seu caminhãozinho se tonaria seu namorado, seu noivo, seu marido ou aquela pessoa com quem você terá um apartamento no centro da cidade? E você nunca imaginou que teria tanto sorte, e tanta surpresa com uma só pessoa, e olha onde você está, pela primeira vez na vida sendo fiel até em pensamento sem querer mais ninguém que não seja aquele cara que todos dizem que não combina com você.
Surpresas da vida? Sim, com certeza você nunca esperou ser tão feliz. Parabéns, você encontrou o maior presente que a vida te dá: você encontrou o amor.

Romeo

Como se soubesse o quanto te amo, como se soubesse o que eu sinto e o quanto sinto. Como se soubesse e me lesse, não me lê nem vê. E não sabe de nada do que eu sinto. Nem vais saber. E por que continuar com isso? É vingança pelo que ja te fiz passar? Parabéns, conseguiu.

Não sabes o que fala quando fala o que pensa. Não pensa quando fala e não pensa no que me faz. Pensa? Pensa em como fico e no quanto sinto e não demosntro? Não posso nem vou. E é por ti. Por ser melhor pra ti.


É a última vez que digo que nenhum abraço é igual a esse. Que a lua sexta estava perfeita. Que eu sinto tua falta. E é demais. É a última vez que peço desculpas e é a última vez que te digo Adeus.
e te amo.

Memória


Eu lembro da primeira vez que te vi. Lembro a roupa que usava e lembro o modo como andava, o modo como o teu cabelo bagunçado se mexia conforme o vento e lembro dos teus óculos escuros sobre a cabeça. Eu lembro do jeito como caminhou, e lembro das sacolas que carregava.
Lembro de tentar te fazer me olhar e tu não sair da abstração. Lembro que tudo o que pensei foi que não podia te deixar escapar, que não podia perder a oportunidade de te conhecer.
Lembro que, depois de várias tentativas falhas de chamar a tua atenção, me utilizei da menos sutil. Lembro da tua cara surpresa, lembro de sentir meu rosto corar.
Lembro que, quando nos encontramos pela primeira vez, fomos a uma cafeteria. Lembro da roupa que tu usava nesse dia também. Lembro de estar muito nervosa antes de te encontrar e depois de dois minutos estar completamente calma. Lembro de ter pedido chocolate quente, mas não lembro o que tu pediu. Lembro do gosto do chocolate e lembro de ter queimado a língua. Lembro que tu achou que eu estivesse nervosa por não falar muito. Lembro de tu perguntar que tipo de musica eu gostava e eu dizer 'ultimamente tenho ouvido muito 30 seconds to mars, e tu?' e tu me dar uma resposta de vinte minutos, da qual eu não entendi nada e respondi 'hum'. Lembro que dois dias depois eu iria ao teatro e queria te convidar, mas fiquei sem coragem, e tentei convidar de uma maneira que não soasse apelativa. Não sei como soou aquele convite, mas lembro de pensar que tu não aceitaria. Tu não aceitou. Lembro de ir embora pensando que nunca mais te veria, lembro que um segundo depois de eu pensar isso, tu me beijou.
Eu também lembro da primeira vez que disse que te amava. Lembro que tu não respondeu nada. Lembro de tudo que senti naqueles segundos.E lembro que nada do que eu pensei me fez bem.
Lembro de um dia comum, lembro de me despedir dizendo te amar e ir embora. Lembro do tom daquele ‘eu também te amo’ meio gritado, lembro da maneira como sorri e corri de volta. Lembro de tudo o que pensei naqueles segundos. Lembro de tudo o que senti naqueles segundos.

Lembro de como precisávamos nos esconder naqueles dias e lembro que ontem vi nossa foto nas redes sociais, lembrei que vamos morar juntos. Lembrei de tudo o que passamos e suplantamos pra chegar aqui, lembro que te fiz sofrer, lembro que me faz chorar. Lembro de ser mandada à merda e lembro de te chamar de canalha. Lembro de quando tu fumou algo a mais e saiu dançando uma musica que não tocava, lembro de ter que te chamar pra realidade perigosa do local onde estávamos. Lembro de não lembrar o que aconteceu depois, lembro de pensar que sempre quis esses momentos, lembro de achar isso meio estranho. Lembro das nossas conversas sobre futuro, lembro de me falar sobre nossos filhos, lembro de me achar infantil por ficar tão feliz.
Eu não lembro o que comi ontem, não lembro da matéria da minha aula da semana passada, não lembro o que falam, não lembro nomes e não decoro rostos, nunca guardei datas de namoro e nunca lembrei comemorações idiotas, eu esqueço meu próprio aniversário. Mas eu lembro tudo sobre nós, eu lembro de tudo sobre ti.
Talvez minha memória falha seja afetada por ti, seja melhorada miraculosamente pra me fazer pensar repetidamente em cada movimento e palavra tua, pode ser, nunca se sabe.
Ou pode ser só que eu te amo.

Debutante



Era a sua cidade, aquela sempre fora a sua cidade e agora ela estava no centro de tudo. Naquela noite, ela estava onde queria estar, com quem queria estar. Porto Alegre sabe ser muito receptiva com seus filhos pródigos, e aquela recepção calorosa era tudo o que ela esperava, mais até do que ela esperava. Quantas vezes quis fazer parte de tudo aquilo que ouvia e via e lia e sabia sobre aquele lugar no qual estava agora? Depois de uma passada em alguns bares e alguns locais de encontro dos quais ela já ouvira tanto falar e queria tanto conhecer, já não era a mesma pessoa do começo da noite, ela viu o que ela queria ali, e se fosse necessário se perder de todo o resto pra ter aquela vida que ela via, ela se perderia, e se refaria ali, com prazer e sem medo algum. Nada do que ela viu foi menos que suas expectativas, e ela sempre espera demais. Foi bom não ser decepcionada.
Seus olhos chocolatados brilhavam de excitação. Luzes, pessoas, bebidas, drogas. Não veja isso com mal, as pessoas sabem se cuidar, e cuidam umas das outras. É óbvio que há mais chance de algo dar errado e alguém se perder no caminho do que se ficassem em casa assistindo TV, mas qual a graça de uma vida sem riscos? Sem exageros ocasionais? Ela tem dezoito anos e não costuma sair, ela tem dezoito anos e uma visão diferente de tudo o que aparentemente é ruim. Talvez seja pura ingenuidade, ou talvez ela seja menos ingênua do que pensa.
-- Bem vinda à cidade baixa, amor.
Ter o que ela já quis tanto, nunca esteve tão perto, ela teve medo, mas agora não tinha mais, agora ela sabia exatamente o que queria, quem queria e como queria. E era aquilo.
“Se minha mãe sabe que estou aqui, me expulsa de casa”, pensou. Mas não falou nada, isso não era mais um empecilho, isso não importava mais, a boca escancarava um enorme sorriso e a menor das palavras estragaria o momento. E aquele era seu momento, sua festa de debutante às avessas, sua apresentação pra sociedade Porto Alegrense como participante, e não como expectadora.
-- E então, quem quer canha de pimenta?
“Ah, grande Yuri”.
Acompanhando um grupo de cinco ou seis pessoas que apenas refaziam suas atividades normais de fim de semana, conheceu pessoas e lugares. Andando no meio das ruas, entre táxis, nos cantos entre drogas, entre beiradas e bebidas e cigarros e pessoas. Pessoas, todos os tipos, nenhuma que lhe causasse espanto, apenas curiosidade. Aquelas pessoas combinavam tanto com aqueles lugares, lugares que não a intimidavam, quanto maior a singularidade, maior a sua curiosidade, maior sua vontade de conhecer tudo, de falar com todos, de ser e fazer parte daquilo. Por que ela perdeu tanto tempo? Recuperaria tudo agora, causando o dano posterior que fosse, ela não se importava mais. Aquelas regras maternas e até sociais que a impediam de ir a esse tipo de lugar, de experimentar certas drogas, certas bebidas e todas essas coisas que parecem tão ruins quando vistas de fora são muito unilaterais, são preconceituosas e feitas por quem não conhece daquilo. Feitas por quem não vive aquilo. Marginalizam pessoas sem necessidade, mas essas mesmas pessoas não se importam, pois isso não as atinge. Você é um bêbado por que se diverte nos fins de semana? Você é um perdido por que fuma? As pessoas de fora não cansam de falar, mas quem sabe o que faz, está tão ocupado com sua vida, sua família e todas as coisas que qualquer pessoa considerada comum têm, que isso é o menor dos seus problemas. Bem vindo ao mundo underground.
Esse foi o mundo que ela conheceu, e que sempre quis conhecer.
Depois de tudo o que viu, alguns cigarros, algumas doses de vodka e um estômago vazio, ela não era mais a menininha muda: ela falava, ouvia, ria e discutia. Como nunca.

Obrigada, amor. Cedo ou tarde isso ia acontecer, fico feliz por ser tu a me mostrar tudo isso.