Era a sua cidade, aquela sempre fora a sua cidade e agora ela estava no centro de tudo. Naquela noite, ela estava onde queria estar, com quem queria estar. Porto Alegre sabe ser muito receptiva com seus filhos pródigos, e aquela recepção calorosa era tudo o que ela esperava, mais até do que ela esperava. Quantas vezes quis fazer parte de tudo aquilo que ouvia e via e lia e sabia sobre aquele lugar no qual estava agora? Depois de uma passada em alguns bares e alguns locais de encontro dos quais ela já ouvira tanto falar e queria tanto conhecer, já não era a mesma pessoa do começo da noite, ela viu o que ela queria ali, e se fosse necessário se perder de todo o resto pra ter aquela vida que ela via, ela se perderia, e se refaria ali, com prazer e sem medo algum. Nada do que ela viu foi menos que suas expectativas, e ela sempre espera demais. Foi bom não ser decepcionada.
Seus olhos chocolatados brilhavam de excitação. Luzes, pessoas, bebidas, drogas. Não veja isso com mal, as pessoas sabem se cuidar, e cuidam umas das outras. É óbvio que há mais chance de algo dar errado e alguém se perder no caminho do que se ficassem em casa assistindo TV, mas qual a graça de uma vida sem riscos? Sem exageros ocasionais? Ela tem dezoito anos e não costuma sair, ela tem dezoito anos e uma visão diferente de tudo o que aparentemente é ruim. Talvez seja pura ingenuidade, ou talvez ela seja menos ingênua do que pensa.
-- Bem vinda à cidade baixa, amor.
Ter o que ela já quis tanto, nunca esteve tão perto, ela teve medo, mas agora não tinha mais, agora ela sabia exatamente o que queria, quem queria e como queria. E era aquilo.
“Se minha mãe sabe que estou aqui, me expulsa de casa”, pensou. Mas não falou nada, isso não era mais um empecilho, isso não importava mais, a boca escancarava um enorme sorriso e a menor das palavras estragaria o momento. E aquele era seu momento, sua festa de debutante às avessas, sua apresentação pra sociedade Porto Alegrense como participante, e não como expectadora.
-- E então, quem quer canha de pimenta?
“Ah, grande Yuri”.
Acompanhando um grupo de cinco ou seis pessoas que apenas refaziam suas atividades normais de fim de semana, conheceu pessoas e lugares. Andando no meio das ruas, entre táxis, nos cantos entre drogas, entre beiradas e bebidas e cigarros e pessoas. Pessoas, todos os tipos, nenhuma que lhe causasse espanto, apenas curiosidade. Aquelas pessoas combinavam tanto com aqueles lugares, lugares que não a intimidavam, quanto maior a singularidade, maior a sua curiosidade, maior sua vontade de conhecer tudo, de falar com todos, de ser e fazer parte daquilo. Por que ela perdeu tanto tempo? Recuperaria tudo agora, causando o dano posterior que fosse, ela não se importava mais. Aquelas regras maternas e até sociais que a impediam de ir a esse tipo de lugar, de experimentar certas drogas, certas bebidas e todas essas coisas que parecem tão ruins quando vistas de fora são muito unilaterais, são preconceituosas e feitas por quem não conhece daquilo. Feitas por quem não vive aquilo. Marginalizam pessoas sem necessidade, mas essas mesmas pessoas não se importam, pois isso não as atinge. Você é um bêbado por que se diverte nos fins de semana? Você é um perdido por que fuma? As pessoas de fora não cansam de falar, mas quem sabe o que faz, está tão ocupado com sua vida, sua família e todas as coisas que qualquer pessoa considerada comum têm, que isso é o menor dos seus problemas. Bem vindo ao mundo underground.
Esse foi o mundo que ela conheceu, e que sempre quis conhecer.
Depois de tudo o que viu, alguns cigarros, algumas doses de vodka e um estômago vazio, ela não era mais a menininha muda: ela falava, ouvia, ria e discutia. Como nunca.
Obrigada, amor. Cedo ou tarde isso ia acontecer, fico feliz por ser tu a me mostrar tudo isso.

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