Eu não tenho orgulho de admitir (na verdade tenho, mas não é bom falar sobre isso), mas desde que aprendi a andar de salto alto – o que já faz muito tempo - aprendi também tudo o que precisava pra convencer minha mãe do que eu queria. Aquela coisa do ‘ah, mãezinha, deixa vai’ funcionava muito bem. Por um tempo. Os anos passaram e as coisas mudaram. Passei a querer coisas que ela não aceitava, que não permitiria que eu participasse, então, tive que aperfeiçoar minha arte de conseguir permissão, e desenvolvi a arte da enrolação. Essa arte baseia-se na habilidade de dizer uma coisa, fazer outra, e ainda convencer a todos que estava fazendo o que disse. É mais complexa do que parece, requer tempo, prática e é claro, o dom. Mas chega um hora que as coisas desabam, existem coisas que não se sustentam por muito tempo. Tudo bem, tudo vem à tona e então aquela mãe perde toda a confiança. Nada mais justo. Mas minha mãe me ama, e como um grande sábio que eu conheço vive dizendo: Esse é o ponto. Ela me ama, e mesmo que eu erre, ela fica brava por alguns dias, as vezes por algumas horas, e depois releva. Detalhe: ela não esquece, ela releva. O porquê disso eu ainda não descobri, mas tem algo a ver com o amor que ela sente por mim. Então eu apronto, ela fica brava por algum tempinho, releva (e eu acho que ela esqueceu, mas não) e por um tempo ficamos bem. E o que acontece depois?
Então eu apronto de novo.
É, as coisas não são mais as mesmas da primeira vez, a confiança foi abalada, e é claro que ela fica com um pé atrás. Mas ela me ama, e pelos mesmos motivos pelos quais relevou pela primeira vez, releva na segunda.
Na terceira.
Na quarta.
Na quinta.
Na décima oitava.
Na qüinquagésima primeira.
Óbvio que existe uma hora que ela vai parar de confiar, mas ela ainda vai relevar, por que ela me ama.
Agora sabe qual o MEU problema? Eu sou igual a ela.
Entenda da forma que quiser.
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