quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Cotidiano.


Fixou os olhos no teto e parou de respirar. Não havia o que fazer sozinha naquele corredor. Segundos antes a porta do elevador se fechara e aquele de quem ela não queria se despedir foi embora mais uma vez, para voltar no fim da noite, cansado de excessos e faltas e coisas sem sentido que cansam por estarem lá ocupando lugar.
E todo dia é assim.
Eles acordam, ele a beija enquanto amanhece, a chama de girassol, dão risadas, derrubam mesas, sujam sofás, ela ri, ele ri, e se amam, se chamam e vivem e morrem, todo dia, todo dia, todo dia. Ele diz que vai trabalhar, a expressa dela muda, todo dia. Todo dia ele a beija, anda dois passos e volta e pergunta se ela vai ficar bem e ela não responde por que a resposta é óbvia e ela não vai ficar bem e ela não quer ficar bem sem ele, ele a beija de novo e fecha a porta e anda até o elevador que sempre demora. E dentro da casa ela levanta, abre a porta e corre até o elevador só de camiseta, ele a pega no colo e diz pra colocar uma calça e ela ri e provoca e faz manha e pede pra ele ficar. A porta do elevador fecha e ele desceu e ela ficou e olha pro teto prendendo a respiração e começando a contar as horas pra ele voltar.
Entra de novo no apartamento, coloca uma musica e pensa na saudade que já existe e começa a machucar, se embola nas cobertas, se enrola, geme, chora, sente falta, dorme.
Acorda já de noite, olha o relógio em cima da mesa torta, ao lado da flor que precisa de água e que não pede nada para estar ali, faltam cinco horas, as vezes seis, as vezes mais, menos, muito, muito, sempre falta muito. Ela arruma a cama e limpa a casa, não há lixo no chão, não há pó na estante, não há mais nada a fazer, pensa em procurar emprego, mas não procura, pensa em ligar pra casa, mas não liga, pensa em andar lá fora, mas não sai.
Escreve alguma coisa, ouve musica, olha pela janela, fuma um cigarro, faz café, faz janta, e não pensa mais no futuro dela, e sim no futuro deles, e não basta ver ele chegar, ela precisa sentir, abraçar, morder, beijar, saber que ele está lá, que ele vai ficar, que ele não quer ir e não vai desistir de ficar, que ele não vai mais desistir de ficar. A casa é só uma casa sem ele lá, não é lar nem mar nem ar nem nada.
O mundo dela gira em torno dele, deles.
Ela ainda olha pela janela, escuta musica, espera ansiosa e tranqüila, e querendo contar as novidades no dia que não teve nada de novo. As pessoas lá embaixo ainda andam, os carros ainda correm, a sinaleira abre e fecha, ela se encosta na janela e fuma e tudo está no seu lugar, menos ela, que tem como único lugar o colo dele e é lá que tem que ficar, enrolada nos braços dele, nas pernas dele e só dele e é só isso que ela espera o dia todo e todo dia, é o sorrir tranqüilo que ela tem quando acorda, e os olhos calmos dele perguntando com o que ela estava sonhando que estava assustada ao dormir, é o vai ficar tudo bem e o já passou que tanto ouve da boca dele junto com o eu te amo, é o esconder-se, são as cócegas, o empurrar brincalhão enquanto andam nas calçadas da cidade que tanto amam, é a piada em boa hora, é a piada em má hora que se torna boa hora pela piada, é a perversão quando bebem, é a perversão quando sóbrios, são as segundas intenções, a cara de vitima, o linguajar chulo, a mente poluída, as piadas internas, o arranhar nas costas, o beijo no pescoço, a mordida, a lambida, é o sorriso, é o sentar na banheira pra fumar, é o ver como ela está, é o existir dele, que é o que faz o existir dela, o teto, o chão, as paredes dela, que são em volta dele, em volta dos dois, abrigando também alguns amigos.
A chave gira na porta.
E é tudo real, ele chega e morde e brinca e come e come e beija e ri e é assim, e é sempre assim, ela dorme todo dia agradecendo a deus por ser tão feliz.

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