Seria hilário se ela te chamasse como antigamente, até tu
daria risada, tão ridícula tal situação. Se ela te visse os abraços não
existiriam, tampouco os sorrisos.
Ela um dia precisou de ti, mas já faz tempo, tu não pôde
ajudar, sempre tão ocupado com amantes e calmantes e com tua reputação que
precisava ser observada e receberia riscos e manchas caso alguém conhecesse
quem tu és, caso alguém conheça aquela pra quem tu não é mais nada. Alega ter
saudade, mas somente a outros, para depois esquecer-se de aniversários,
apresentações, formaturas ou todo e qualquer evento que tivesse a menor ou
maior importância para alguém que queria só um pouco menos da tua ausência, da
tua relutância em manter-se ali.
Tudo havia sido tão cautelosamente planejado e arquitetado,
então por que, de repente, tu te esqueceste de todos os plano, de todos os desenganos,
isolando-se e mantendo-se assim, como que fugindo de memórias e provas de uma
vida passada?
Ela cresceu sem a tua presença, aprendeu a ler bons livros,
ouvir bons discos, aprendeu a sair sem ter alguém para buscá-la, aprendeu a não
depender de mesada, aprendeu a namorar e também a dirigir. Sem ti.
Ela não precisou de ti, não precisou da tua ajuda, dos teus
conselhos e nem da tua companhia, e ainda não precisa.
Ela cresceu, sabia? É uma boa garota, caso queira saber,
educada, inteligente e até divertida, ela tem alguns pontos de personalidade
que lembram tu, mas não o caráter. Ela fala inglês, vai fazer faculdade,
trabalha e está noiva.
Ela está bem, e vai ficar bem.
Sabe o que é melhor? Ela nem lembra de ti, ela não espera
nada de ti. Mais nada de ti.
Mas ela devia, afinal, tu é o pai dela.
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