Ele não esperou convite, entrou, sem dizer oi, com um beijo
brusco e um olhar distante. Não houve abraços, não houve risadas e ele não se
escondeu.
Andou em direção ao quarto e largou suas coisas, enquanto
ela voltava pra cozinha para terminar a janta que deixara pela metade. Os
pratos tremiam, tensos.
Ele perguntou se ela queria ajuda, e ela queria, queria tudo
o que ele pudesse oferecer, e oferecer já não era o bastante.
Não obrigada. - ela respondeu
Ele sentou-se no sofá e acendeu o cigarro, depois outro e
outro enquanto ela mexia panelas e queimava arroz e dedos e panos de pratos e
toda a calma que ela não tinha e não aparentava e nem mais tentava. Está
pronto, ela falou, indo até o quarto pra se jogar num mar de cobertas pra
abafar o som da sua cabeça gritando é culpa tua é culpa tua.
Ela não o encarava, ele não a olhava, e se olhava, era
tentando ver através, e nada havia atrás daqueles olhos molhados, fechados,
cansados.
Eles se serviram e comeram em silencio. Os copos e pratos
foram colocados na pia e ele foi até o quarto enquanto ela ficou na sala
olhando a janela.
Não havia maneira de fazer aquilo melhorar, era culpa dela
toda a sucessão de fracassos e os frascos de mágoas escondidos nas gavetas que
foram finalmente abertos. Ela não ousava reclamar. Era grande pra errar e pra
assumir que errou. Ela até tentava encarar tudo com otimismo, mas foi assustada
ao ver no que se tornara. Grande demais, incrível e invencível demais, pensava
ela, mas só pensava, porque na verdade, nada disso era realmente, pouco disso
era algo que ela queria, mas em sua fantasia infantil era e tinha e podia e
fazia.
Quando a realidade chegou, tudo explodiu na sua cara de
maneira assustadora, avassaladora.
Ela foi em direção a cama e ficou ao lado dele, esperando
qualquer movimento acolhedor, que fosse um gesto, um olhar, até uma repreensão,
qualquer coisa que indicasse que ele ainda estava ali, aquele ele de sempre,
aquele ele amável, alegre ele apaixonado que sorria pra ela e fazia caretas.
Mas não estava, quem estava ali era outra pessoa, era outro, que não ele, era
um outro insensível e presencial.
Que não parecia querer sair.
Nenhum comentário:
Postar um comentário