quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pra dizer que fico por aqui (parte dois)


Ele não esperou convite, entrou, sem dizer oi, com um beijo brusco e um olhar distante. Não houve abraços, não houve risadas e ele não se escondeu.
Andou em direção ao quarto e largou suas coisas, enquanto ela voltava pra cozinha para terminar a janta que deixara pela metade. Os pratos tremiam, tensos.
Ele perguntou se ela queria ajuda, e ela queria, queria tudo o que ele pudesse oferecer, e oferecer já não era o bastante.
Não obrigada. - ela respondeu
Ele sentou-se no sofá e acendeu o cigarro, depois outro e outro enquanto ela mexia panelas e queimava arroz e dedos e panos de pratos e toda a calma que ela não tinha e não aparentava e nem mais tentava. Está pronto, ela falou, indo até o quarto pra se jogar num mar de cobertas pra abafar o som da sua cabeça gritando é culpa tua é culpa tua.
Ela não o encarava, ele não a olhava, e se olhava, era tentando ver através, e nada havia atrás daqueles olhos molhados, fechados, cansados.
Eles se serviram e comeram em silencio. Os copos e pratos foram colocados na pia e ele foi até o quarto enquanto ela ficou na sala olhando a janela.
Não havia maneira de fazer aquilo melhorar, era culpa dela toda a sucessão de fracassos e os frascos de mágoas escondidos nas gavetas que foram finalmente abertos. Ela não ousava reclamar. Era grande pra errar e pra assumir que errou. Ela até tentava encarar tudo com otimismo, mas foi assustada ao ver no que se tornara. Grande demais, incrível e invencível demais, pensava ela, mas só pensava, porque na verdade, nada disso era realmente, pouco disso era algo que ela queria, mas em sua fantasia infantil era e tinha e podia e fazia.
Quando a realidade chegou, tudo explodiu na sua cara de maneira assustadora, avassaladora.
Ela foi em direção a cama e ficou ao lado dele, esperando qualquer movimento acolhedor, que fosse um gesto, um olhar, até uma repreensão, qualquer coisa que indicasse que ele ainda estava ali, aquele ele de sempre, aquele ele amável, alegre ele apaixonado que sorria pra ela e fazia caretas. Mas não estava, quem estava ali era outra pessoa, era outro, que não ele, era um outro insensível e presencial.
Que não parecia querer sair.

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